Nas últimas semanas cresceram as tentativas de definir, no grito, como se diz, os rumos e as interpretações sobre as eleições.
A primeira e a mais grosseira delas - mas logo acolhida pelas manchetes principais da imprensa - foi a de vincular o PCC ao PT. Não colou. Em primeiro lugar, nada foi investigado. Tratava-se apenas de gerar frases impressionantes para os que só lêem as manchetes nas bancas ou em casa, e para aproveitamento posterior, se autorizadas, em programas de TV no horário eleitoral.
É até possível que o PCC tenha algum rancor contra o PSDB. É difícil medir isso com precisão. Afinal de contas, um dos aspectos mais graves da situação da segurança pública em São Paulo, é a de que ela deixou de ser pública. Ninguém sabe o que aconteceu nem o que está acontecendo. Os tempos da ditadura militar nos legaram o triste espólio dos desaparecidos. Em São Paulo enfrentamos a realidade dos invisíveis: quem morreu? Por que morreram os que morreram? Houve acordo do governo com o PCC? Parece que sim, mas...
O mas... é o aspecto mais complicado da questão, porque permite uma profusão de hipóteses, uma mais sinistra do que a outra. A mais abrangente é a de que haveria na verdade um acordo antes da remoção dos presos para Presidente Venceslau no começo de maio. Essa remoção foi, na verdade, a ruptura do acordo que haveria, daí os ataques de 12 de maio, que seriam uma retaliação.
Depois a situação fica mais confusa ainda. Não se sabe até hoje a identidade de vários dos mortos, nem seu número exato, nem por que nem como morreram, há informações sobre execuções que ficam sem investigação apropriada.
Mas essa situação caótica, provocada por uma política de segurança pública completamente inadequada do ponto de vista conceitual e anacrônica, como foi a de São Paulo faz muito tempo, jamais favoreceu partido algum de esquerda em eleições. Ao contrário, ela favorece tradicionalmente a direita. Se alguém sair favorecido dela será ainda a coorte dos que pregam as políticas truculentas, a construção de megapresídios e outras soluções aparentes, na verdade, mega becos sem saída.
A mais recente tentativa na mídia é semelhante a esta: trata-se de colar no PT e no governo Lula tudo o que diz respeito a "sanguessugas" e a só agora badalada máfia das ambulâncias. Novamente há indícios muito sérios de que isso vinha de antes. Mas não interessa, o que importa é malhar o governo. E na esteira vêm outros comentários da mesma laia. Israel arrasa o Líbano e atrapalha a saída de brasileiros? É uma humilhação para o governo Lula! A rodada Doha empacou, estão todos desesperados, uma representante dos EUA saiu batendo as portas: não importa, o fracasso foi da política do governo Lula! E por aí se vai.
Mas o caso mais interessante dos últimos tempos foi o da interpretação da ascensão nos votos da senadora Heloisa Helena. É certo que ela foi catapultada por um auxílio da mídia. Mas o que ela capta tem motu próprio, ainda que ela capte votos em águas muito diferentes entre si. Uma parte do seu voto vem do auto-descontentamento petista; outra parte vem de um descontentamento fluido e generalizado; há um voto feminino; e há um voto de direita, baseado no eterno moralismo que divide a cena política em "bons" e "maus" administradores e assim "naturaliza" as diferenças políticas dos projetos, sempre a favor daqueles que nada querem mudar e criam um véu de aparência ética em torno de suas atitudes, que protegem, no fundo a imoral desigualdade da sociedade brasileira.
Essa captação de votos em várias águas tem mais a ver com a atuação ambígua da própria senadora que ora dá duas no prego, ora três na ferradura, do que com qualquer outra coisa. De um lado, faz um discurso à esquerda, atacando as concessões da política econômica aos valores do mundo financeiro; de outro, faz um discurso à direita, quando, por exemplo, diz que no seu governo nem Bush nem Chávez mandarão no Brasil.
Mas esse movimento ganhou