Apesar de o presidente Lula ter afirmado em sua recente entrevista coletiva que não está preocupado com a queda do dólar e que manterá o cambio flutuante, crescem os temores no governo e na sociedade sobre os efeitos deletérios, imediatos e futuros, das políticas monetária e cambial adotadas pelo ortodoxo Banco Central. "(A queda do dólar) é boa para uns e ruim para outros", desconversa Lula. Nas últimas semanas, a moeda estadunidense despencou para menos de R$ 2, a menor cotação desde 2001. No acumulado deste ano, ela já sofreu perdas de quase 9%, resultando numa supervalorização da moeda brasileira, o real.
De fato, aparentemente, a política cambial tem reflexos contraditórios, como insiste o presidente. Por um lado, a desvalorização do dólar faz, num primeiro momento, cair os preços de alguns produtos e serviços, como o dos eletroeletrônicos importados e das passagens aéreas, o que alivia o bolso dos consumidores - em especial, das camadas ricas e médias da sociedade. "As viagens para conhecer a Disneylândia, que foram esquecidas pela classe média por um tempo, voltaram a ficar em alta", festeja o jornal Folha de S.Paulo. O "derretimento" do dólar também atrai o capital estrangeiro para o país, tanto que a Bolsa de Valores fechou com forte oscilação na semana passada, registrando novos recordes na sua pontuação.
"Os custos excedem as vantagens"
Por outro lado, porém, a valorização artificial do real prejudica as exportações brasileiras e afeta toda a cadeia produtiva. Setores industriais como dos têxteis, calçados e outros perdem competitividade no país e no exterior - o que, a curto prazo, pode aumentar a quebradeira das empresas e o índice de desemprego. Além disso, a atual política cambial serve ao capital financeiro especulativo, que migra para o Brasil em busca do lucro fácil proporcionado pelas mais altas taxas de juros do planeta. Pesando estes dois lados da "moeda", fica a pergunta: a quem interessa esta política? O economista Paulo Nogueira Batista Jr., que hoje inclusive faz parte do governo, não vacila em afirmar que ela não serve aos interesses nacionais.
"Alguns consideram a queda do dólar inevitável ou bem-vinda. Ela refletiria a situação internacional e a melhoria dos 'fundamentos' da economia brasileira. Muitos lembram que o real forte ajuda a controlar a inflação... Esses argumentos têm alguma validade. Mas parece estar ficando cada vez mais claro que os custos da valorização excedem suas vantagens". Entre outros efeitos negativos, ele pontua: "a valorização persistente e crescente do real tende a provocar a erosão gradual das contas externas"; "prejudica o nível de atividade, especialmente no setor industrial"; "deprime a competitividade das exportações e estimula a substituição da produção nacional por importações"; e "estimula a migração de investimento de empresas brasileiras para o exterior". Em síntese, ele serve para exportar "produção, investimentos e empregos".
"Um alerta ao Banco Central"
As seqüelas do cambio flutuante já se fizeram sentir no ano passado. Segundo estudos do Ministério do Trabalho, então sob comando de Luiz Marinho, o dólar barato afetou o mercado de trabalho, reduzindo a abertura de vagas. A criação de empregos com carteira assinada em 2006 foi menor do que em 2005 - 4,7% contra 5%. A valorização do real atrapalhou as vendas de produtos dentro e fora do país e reduziu a necessidade das empresas reforçarem a produção com mais contratações. "O nível de emprego poderia ter sido melhor se o juro tivesse caído mais e o câmbio estivesse num patamar que estimulasse exportações e inibisse importações", criticou, na época, Luiz Marinho, amigo intimo do "tranqüilo" presidente Lula.
"Esse resultado é um alerta para a equipe econômica do governo, especialmente para o Banco Central. O câmbio prejudica a indústria nacional e está afetando a tomada de decisões do empresariado", completou o ex-ministro. No mesmo período, em janeiro passado,