Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

As revoltas na Grécia

Quarta, 29 de Junho de 2011 às 11:17, por: CdB

Todos os dias eu vejo, estupefata, as manifestações emAtenas. Estive lá, em julho do ano passado, e pude acompanhar de perto estascaminhadas, as vigílias em frente ao parlamento, os confrontos com a polícia.Conversei com dirigentes partidários, sindicalistas, estudantes. Em cada umdeles pude perceber a clareza de tudo o que acontece no país. Submetido a umgoverno de vende-pátrias, o povo grego tem visto, desde 2004, a consolidação deum estado de inanição do próprio estado, mergulhado em dívidas, contraídas arevelia do povo mesmo.

Baseados em megalomaníacos projetos de recuperação dapomposidade das olimpíadas, o governo pegou empréstimos de vários bancoseuropeus para construir estádios, fazer reformas em outros, e sempre com amesma velha cantilena de que tudo isso se reverteria em benefícios para o povo.Nada disso aconteceu. Alguns embolsaram grana, obras faraônicas foram feitas eo povo agora tem de pagar por isso.

Naquele 2010, quando lá estive visitando o magnífico estádioolímpico, tudo o que pude ver foi vazio e silêncio. Nada acontece por lá. Tudoestá entregue às moscas. Já o povo sobrevive no mesmo velho diapasão dos povosdos países periféricos e dependentes. Poucos empregos formais, muito empregotemporário no turismo, muita informalidade. A Grécia é um país incrível, cheiode belezas, berço da história ocidental. Seu potencial turístico é grandioso,mas ao que parece, poucos podem usufruir de toda essa riqueza.

Nas ruas, pode-se perceber um movimento organizado muitoforte. O partido comunista é bastante agregador e tem sido uma ponta na lançados protestos. As passeatas organizadas pelos sindicatos também mostram a forçados trabalhadores visceralmente articulados nessas organizações trabalhistas.Há ainda um movimento da juventude, não ligada a qualquer partido ouorganização, que também se expressa nas ruas de forma muito radical e háigualmente um outro movimento de populares que se integra numa ou noutracoluna, simplesmente porque sente-se indignado com tudo que acontece. Nas análises que consegui colher naquelesdias de peregrinação pelas entidades o que aparece muito claro é que estesmovimentos que se juntam nas ruas ainda não eram capazes de se unir num únicoprojeto de nação. Cada grupo disputa seu ponto de vista e muitas vezes asmanifestações acontecem de forma separada, só se juntando ao final, naSintagma, a praça central em frente ao parlamento.

Lá dentro, é o que se vê na televisão. Completamenteindiferentes ao clamor das ruas os deputados seguem decidindo por maisempréstimos para saldar as dívidas do país, feitas sem que o povo pudesseopinar. Mais empréstimos que significam a completa submissão do país àsreceitas impostas pelos organismos financeiros. Cortar despesas, apertar oscintos. E tudo isso só vale para os trabalhadores. Ao observar os ternos bemcortados dos deputados que se sucedem no plenário, pode-se perceber que nobolso deles nada está doendo. Mesmo naRede Globo, onde as notícias são pasteurizadas, é impossível deixar de perceberas contradições que saltam, gritantes.

Ontem (28/06), depois de mostrar as imagens violentas doschoques entre os manifestantes e a polícia, e informar que o parlamento haviaaprovado as novas medidas recessivas, Fátima Bernardes leu mais uma notícia,com um sorriso: "A aprovação do novo pacote animou os investidores estrangeirose a bolsa de Nova Iorque teve uma subida de 6%”. Bom, para qualquer observadorde nível médio, essa informação vale mais do que mil análises. Enquanto asgentes gregas se debatem entre suas diferenças e toda a desgraça que se abatesobre elas, os investidores, banqueiros, empresários, os tubarões, lambem osbeiços e se preparam para mais um banquete com comida alheia.

Nos meus ouvidos ainda ecoa a voz de trovão de um velhomilitante comunista, daqueles que ainda enche os olhos d água ao lembrar dosvelhos tempos de revolução popular, da grande a figura de Alexandros Panagulis,o inesquecível lutador grego que, em 1968, tentou matar o ditador GeorgiosPapadopoulos. "Eu não queria matar um homem, e sim um tirano”, dizia. Naquelesdias havia um projeto, um sonho, que, hoje, se perdeu, até porque os quecomandam se dizem socialistas. Há desesperanças, há tristezas, mas há luta,muita luta.

Nas ruas de Atenas, os jovens e os trabalhadores saem decasa, todos os dias, com o seu kit básico de revolta: lenços, máscara contragás (muitas feitas de modo bem artesanal), pedras. Mas o que se vê é que asruas se enchem, os conflitos se fazem, e nada muda. A elite que domina o país,a classe política que faz as leis, todos seguem fazendo o que bem entendem semque a revolta se transmude em mudanças reais. A esquerda democrática pede novaseleições, acredita que pela via institucional as coisas podem mudar. Mas, háuma grande parcela que já sabe que mudam as moscas, mas a meleca segue igual.Há que refundar a Grécia. O desafio é unir esses lutadores num projeto denação. E isso, ao que parece, longe está... longe está...

Enquanto isso, vamos assistindo a toda essa tristeza.

Tags:
Edições digital e impressa