A conferência da Unctad, que se realiza nesta semana aqui em São Paulo, é uma excelente ocasião para aprofundar a discussão de um tema de grande importância para o Brasil: o comércio Sul-Sul. Como se sabe, a ênfase no fortalecimento das relações econômicas e políticas com outros países em desenvolvimento é um dos traços centrais da política externa do governo brasileiro desde 2003. Nos anos 90, essa ênfase teria sido rejeitada como "ultrapassada" ou "terceiro-mundista". Mas o ambiente agora é outro. Hoje, poucos se animam a lançar mão desse gênero de caricatura.
Como ignorar o aumento da participação do Sul nos fluxos mundiais de comércio? Em meados da década de 80, as economias em desenvolvimento respondiam por 20% do comércio global. Atualmente, essa participação chega a 30%, segundo a Unctad. No ano passado, pela primeira vez na história, os Estados Unidos importaram mais mercadorias dos países em desenvolvimento do que de outros países desenvolvidos. Mais de 40% das exportações dos EUA se destinam a países em desenvolvimento. Os percentuais correspondentes alcançam quase 50% no caso do Japão e um terço no da União Européia (exclusive comércio dentro da União). O comércio Sul-Sul ainda representa apenas um pouco mais de 10% do total mundial, mas o seu crescimento tem sido rápido. As exportações para países em desenvolvimento já constituem mais de 40% do total das exportações desses países, de acordo com a Unctad.
Parece provável que o comércio entre economias menos desenvolvidas continue crescendo em termos absolutos e relativos. Diversos países em desenvolvimento, notadamente na Ásia, têm apresentado expansão econômica vigorosa. Além disso, a população desses países deverá aumentar dos atuais 4,8 bilhões para 5,6 bilhões em 2010, ao passo que a dos desenvolvidos ficará estagnada em cerca de 1,2 bilhão.
O Brasil é, há muito tempo, uma economia com relações comerciais bastante diversificadas do ponto de vista geográfico. Nos anos recentes, o nosso comércio com outros países em desenvolvimento cresceu substancialmente. Em 2003, as exportações para a Aladi, a Ásia (exclusive Japão e Coréia do Sul), o Oriente Médio e a África responderam por 37% do total das exportações brasileiras de mercadorias. Evidentemente, as relações com o Norte continuarão de importância fundamental para o Brasil e outras economias periféricas. No nosso caso, 25% das exportações são absorvidos pela União Européia, 23% pelos EUA e 3% pelo Japão.
Não obstante, a intensificação dos fluxos comerciais e as alianças com outras nações da periferia, especialmente as de grande porte, terão um papel decisivo para o Brasil. Isso por duas razões, pelo menos.
Primeira: ajudarão a aumentar o nosso poder de barganha nas negociações em curso na Organização Mundial do Comércio e em outros organismos multilaterais. Na reunião da OMC em Cancún, em setembro de 2003, formou-se o G-20, que inclui a África do Sul, a Argentina, o Brasil, o Egito, a Índia, a Nigéria, o Paquistão e a China. Esse grupo tem atuado de forma bastante coesa desde então e representa a principal esperança de chegar a resultados satisfatórios na rodada Doha da OMC.
Segunda razão: seguindo uma tendência internacional, o Brasil e os nossos parceiros no Mercosul vêm intensificando os esforços de negociação comercial com países em desenvolvimento da América Latina e de outras regiões. Se continuarmos nesse caminho, é provável que, ao longo dos próximos anos, o Mercosul conclua e implemente uma série de acordos de livre-comércio ou de preferências comerciais com países do Sul, como a Índia, a África do Sul e a China.
Nesse campo, o Brasil tem feito progresso considerável. Estamos, finalmente, deixando para trás aquela combinação de deslumbramento idiota e respeito reverencial pelo "Primeiro Mundo" que prevaleceu nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.
Paulo Nogueira Batista Jr., economista e professor da