Insurge-se, na imprensa, em matéria paga, o consórcio de capitalistas brasileiros e estrangeiros que têm participação minoritária na companhia mista de saneamento do Paraná. A maioria do capital é do Estado do Paraná, ou seja, de seu povo. O governador Roberto Requião decidiu aumentar o capital da empresa, a fim de torná-la mais eficiente e assegurar, de forma mais sólida, o controle acionário da empresa - e obteve a aprovação parlamentar para fazê-lo.
Esta, pelo que sabemos, é uma regra do jogo capitalista. Nestes anos de globalização ela foi usada milhares de vezes, aqui e alhures, pelo capital financeiro mundial, a fim de assumir o controle de grandes empresas. Por que o capital privado pode tomar de assalto empresas rendosas, mediante a oferta pública de compra de ações e mediante a chamada de capital, e o capital público não pode fazê-lo?
Isso, no que se refere aos usos e costumes mercantis, à lei do mercado, que é sempre a lei do mais forte. Mas, no caso das empresas de abastecimento de água e saneamento urbano, há outros pontos para a reflexão. Nestas duas últimas décadas, o sistema financeiro mundial deixou de lado toda a velha ética do capitalismo e decidiu substituir, sem disfarces, a soberania política pela soberania do mercado. Como gafanhotos enlouquecidos, seus bucaneiros buscaram o controle de todos os recursos naturais do homem. Além do petróleo, do gás natural, dos minerais, das florestas, dos alimentos e dos recursos marinhos, decidiram assenhorear-se também da água. Se pudessem, açambarcariam também o ar. E tudo com a moral exposta nos escândalos da Enron e da Merryl Linch, da Halliburt e de outras soberbas organizações de Wall Street.
A água é o mais vital de todos os recursos naturais, como supridor de oxigênio e hidrogênio à vida. Trata-se de um crime entregar a sua exploração aos interesses privados. É melhor que a guerra pela água já se inicie agora, e pelo Paraná, e em disputa judicial, se essa disputa houver, do que seja adiada e que à água dos mananciais venha a se misturar o sangue dos que a vierem a defender, na defesa de seu próprio direito à vida.
O problema da Sanepar é outra mina explosiva deixada por Fernando Henrique no caminho de nosso povo. Mais cedo ou mais tarde, teremos que encontrar os meios necessários a fim de retomar o pleno controle dos setores estratégicos da economia e, sobretudo, dos recursos minerais de que fomos esbulhados, com a privatização da Companhia Vale do Rio Doce.
Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).