Pode ser que haja alguma transcendental razão para que o governo do PT continue agindo como vem agindo. Pode ser que essa razão transcendental explique porque os juros continuam pendurados nas altas nuvens e porque o governo da União pretenda concentrar ainda mais os recursos tributários nacionais. Mas é difícil encontrar uma razão transcendental para emperrar a CPI do Banestado, atitude que vem sendo atribuída a próceres do PT. Sempre se falou nos esqueletos escondidos no armário. A expressão é atribuída ao general Golbery, que pregava a necessidade de a ditadura reconhecer os cadáveres que produzira, durante os seus anos mais sombrios, que foram os do general Médici. Mas há uns esqueletos e os outros. Os mais complicados esqueletos morais pertencem a tempos recentes, tempos do governo Fernando Henrique. Se não retirarmos esses cadáveres do armário, e se não os submetermos a uma acurada necropsia, suas almas continuarão a nos atormentar e, mais do que isso, a estimular outros atos de grossa corrupção. Só os inocentes não percebem que parte do sistema financeiro - e vemos que bancos oficiais também participavam da roubalheira - tem servido ao crime organizado, porque o integra. O que nos espanta é que o Banco Central nunca tenha percebido as evidências de lavagem de dinheiro, via contas CC-5, quando lhe cabe a fiscalização das instituições financeiras e não faltaram advertências de que o mecanismo era o instrumento dos criminosos. Como foi possível ao Banco Central engolir as moscas de quilo e meio que foram as contas fictícias do Banco Nacional (se é que as coisas se deram como nos contaram)? E como foi possível ao Banco Central não perceber a saída de US$ 30 bilhões (conforme se divulga) tendo como ponto de baldeação o Banco do Estado do Paraná? Como se recorda, logo no início do governo Fernando Henrique, tivemos o caso do Banco Econômico, logo seguido dos outros, entre eles o exemplar, do Banco Nacional, salvo temporariamente por uma providência de fim de semana. Pediu-se uma CPI, e o governo articulou-se, rapidamente, para impedi-la. Qual era mesmo o argumento? Fernando Henrique não queria que uma CPI tumultuasse as reformas constitucionais em andamento, todas elas contra o interesse nacional, como as que autorizaram o crime das privatizações e a que acabou lhe permitindo um segundo mandato. O governo, é o que se diz nos corredores do Congresso, não deseja, agora, que uma CPI venha a tumultuar a discussão e aprovação das reformas no sistema previdenciário e no sistema tributário. Ora, sempre haverá matérias relevantes de interesse do governo nas duas casas do Congresso. Se o governo partir do princípio que só em tempos amenos possam funcionar as CPIs cabeludas (como é a do Basnestado) que envolvam altas personalidades políticas, jamais teremos uma ordem ética na atividade política brasileira. Se existe uma razão transcendental para que continuemos na mesma, convinha ao governo expô-la à nação. Se a nação dela se convencer, amém. Se, não, é melhor obedecer à razão soberana do povo. Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).
As razões
Por Mauro Santayana - É difícil encontrar uma razão para emperrar a CPI do Banestado, atitude atribuída a próceres do PT. Só os inocentes não percebem que parte do sistema financeiro e os bancos oficiais têm servido ao crime organizado, porque o integram. (Leia Mais)
Segunda, 16 de Junho de 2003 às 17:24, por: CdB