Desde o ano passado, os petistas estão dando "arrancos triunfais de cachorro atropelado", como diria Nelson Rodrigues (outra vez essa figura inapelável e fatal!). É um quadro realmente patético e pungente. E bastante estranho também.
Por que "patético"? E por que "estranho"? Vejamos. O Brasil, como sabemos, não é para principiantes. O governo do PT parece determinado a reduzir o petismo a pó. Um turista estrangeiro que por aqui passasse perguntaria, perplexo: Como pode?
Coloque-se, leitor, na posição de um petista convicto, eleitor fiel, desses que votavam, acreditavam e apostavam em Lula e outras lideranças do PT. Ou, por outra, o leitor talvez seja ele próprio um desses petistas e não precise assim fazer nenhum esforço de imaginação.
Não estou pensando, é claro, nos "petistas profissionais", naqueles que arrumaram empregos ou sinecuras mais ou menos confortáveis, mas sim na maioria que votou com alguma convicção em 2002 e várias eleições anteriores, e em especial nos que foram às ruas, carregando bandeiras, cartazes, denunciando o "neoliberalismo", a exclusão social e às injustiças da política econômica.
Esse tipo de petista ficou diante de duas hipóteses igualmente desagradáveis. Primeira: todas aquelas críticas, teses e idéias sustentadas com fervor por mais de duas décadas estavam essencialmente erradas. Representavam, talvez, uma mera fachada na disputa pelo poder. O presidente Lula e seus auxiliares tiveram a sabedoria de abandonar rapidamente essas tolices assim que desembarcaram, vitoriosos, em Brasília. Nessa primeira hipótese, o petista, que acreditou tanto tempo em tanta bobagem, não tem outra saída senão considerar-se um idiota perfeito e acabado.
Segunda hipótese: as teses não estavam erradas, pelo menos não totalmente. Foi a falta de espinha dorsal das lideranças do PT que levou ao seu abandono. Nessa segunda hipótese, o petista, que acreditou tanto tempo em gente tão desqualificada, não tem outra saída senão considerar-se um idiota perfeito e acabado.
A situação é mesmo estranha. Quem elogia a política econômica do governo? Lideranças nacionais do PSDB e do PFL, a Febraban, o FMI, o governo dos EUA. E quem a critica? Boa parte dos partidos da base aliada, inclusive o próprio PT, a Igreja, empresários industriais, toda a esquerda e a centro-esquerda, trabalhadores, estudantes, oprimidos. Enfim, todo o espectro de opinião que se opunha ao que estava sendo feito com o Brasil nos tempos de Collor e FHC.
É o óbvio ululante, escandalosamente ululante. Diante desse quadro, o que faz o presidente? Simplesmente o seguinte: inaugura nova fase. Nas últimas semanas, converteu-se em paladino e porta-voz da política econômica. Em longos e quase diários improvisos, defende a orientação da Fazenda e do Banco Central, explicando os conceitos econômicos com imagens acessíveis, de compreensão imediata. Não é tarefa fácil, convenhamos. Joelmir Betting, por exemplo, passou anos e anos aperfeiçoando a técnica, e enfrenta algumas dificuldades até hoje.
Mas Lula é um caso especial, evidentemente. Um desses improvisos econômicos presidenciais recentes, cronometrado pela imprensa, alcançou a marca de 56 minutos. Na sua ilha, Fidel Castro treme da cabeça aos sapatos, apavorado com a concorrência inesperada.
Uma coisa é certa: o Brasil está sempre inovando. Tenho meditado muito no que se poderia chamar de "as transfigurações da ortodoxia econômica". É um processo mundial, mas só aqui no Brasil acontecem certos lances que causam no exterior divertida perplexidade.
A ortodoxia econômica tem a sua hierarquia, solene e hierática como toda hierarquia. O nível mais alto está nas principais universidades dos Estados Unidos. É a "ortodoxia teórica", um pouco distante do mundo real, meio misteriosa, repleta de dúvidas, sutilezas e sofisticações.
A primeira transfiguração ocorre quando se passa dessa "ortodoxia teórica" para a "ortodoxia prática" do FMI, do Ba