Rio de Janeiro, 06 de Novembro de 2026

As portas "continuam abertas" para nuclear suíço

Terça, 20 de Setembro de 2011 às 09:00, por: CdB

O acidente de Fukushima, no Japão, parece ter tido pouco impacto sobre as atitudes globais em relação à energia nuclear. Um especialista suíço analisa a questão para swissinfo.ch.

Jean-Christophe Füeg, diretor de assuntos internacionais de energia da Secretaria Federal de Energia, explica porque, apesar da decisão de abandono da energia nuclear na Suíça, as portas permanecem abertas para a construção de reatores de nova geração.

Há seis meses atrás, o tsunami causado pelo terremoto de magnitude 9 atingia os sistemas de refrigeração dos reatores da usina nuclear de Fukushima Daiichi, 240 km ao norte de Tóquio, provocando colapsos em três dos seis reatores nucleares e vazamentos de radioatividade. O Japão ainda pena em manter a usina sob controle. O país também tem que enfrentar uma enorme e cara despoluição radioativa perto da usina.
 
O governo suíço declarou em maio que iria eliminar gradualmente a utilização da energia nuclear até 2034, não substituindo os reatores nucleares existentes no país quando chegarem ao final de sua vida útil.

swissinfo.ch: Qual foi o impacto que Fukushima teve sobre as atitudes em relação à energia nuclear?

Jean-Christophe Füeg: Na Suíça e na Alemanha estamos procurando abandonar a energia nuclear, mas esta é a exceção e não a regra, se você olhar globalmente.
 
Na maioria dos países, as usinas nucleares continuarão funcionando, mas em menor proporção. Elas poderão ser reduzidas, já que as normas de segurança serão revistas, tornando, assim, as usinas mais caras do que no passado.

Jean-Christophe Füeg (DR)

swissinfo.ch: E sobre a confiança do público na energia nuclear?

JC.F.: Fukushima teve um certo impacto na atitude do público, mas apenas marginal - não constituiu opiniões básicas, seja a favor ou contra.
 
É uma pergunta difícil, que poderia ser cultural. Por que os alemães são veementemente contra a energia nuclear enquanto seus vizinhos holandeses, bastante indiferentes, provavelmente endossarão a construção de novas usinas? Como você explica que os dinamarqueses são tão antinucleares e os suecos, que tentaram durante 30 anos sair da energia nuclear, são agora a favor da energia? É um grande enigma.

swissinfo.ch: Quais foram as principais falhas que levaram ao desastre de Fukushima?

JC.F.: É prematuro chegar a uma avaliação conclusiva, mas a nossa inspeção de segurança lançou, na semana passada, algumas ideias preliminares que mostram que os fatores organizacionais e culturais foram predominantes na questão.
 
Havia coisas sendo feitas a nível de organização, planejamento de emergência e níveis de decisão que teriam sido inconcebíveis para um observador ocidental. Por exemplo, o diretor-geral da usina de Fukushima tinha que consultar o gerente geral da Tepco [Companhia de Energia Elétrica de Tóquio] para iniciar a inundação da usina, quando ficou claro que a água do mar era necessária.
 
Dado o histórico do Japão relacionado em encobrir incidentes nucleares nas últimas décadas, este teve repercussão e foi um grande fator que contribuiu para revelar a incapacidade do país de lidar com a catástrofe.

swissinfo.ch: Em uma reunião da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em junho, a Suíça pediu normas de segurança nuclear mais severas, mas o plano de ação subsequente para prevenir uma repetição da crise nuclear do Japão teria sido diluído. Os países estariam menos dispostos a tomar medidas conjuntas agora que se fala menos de Fukushima?

JC.F.: Há uma resistência muito forte, e até mesmo falta de aceitação, pela maioria dos Estados com armas nucleares, a qualquer coisa que eles considerem semelhante a uma meia-intrusão em sua competência nuclear.
 
Vistorias obrigatórias estão provavelmente fora de cogitação. E fatores relacionados com o rigor da segurança, os regulamentos de segurança e a independência dos reguladores têm sido atenuados e isso deve continuar.
 
Mas a Suíça está convencida de que seus comentários na reunião de cúpula do G20, antes da reunião da AIEA em Viena em junho, suscitaram discussões e temos o apoio de um bom número de países europeus. Este é provavelmente apenas o começo de uma discussão muito longa, que vai levar anos.

swissinfo.ch: O governo suíço declarou, em maio, que iria eliminar gradualmente a utilização da energia nuclear até 2034. Mas as portas ainda estão abertas para a construção de reatores de nova geração no futuro?

JC.F:. Sim, definitivamente. As portas estarão sempre abertas na Suíça, já que no final é sempre o povo que decide, é uma questão de dez ou 20 anos. A decisão do governo reflete o estado atual da opinião pública. Ninguém pode dizer o que o futuro reserva.

swissinfo.ch: Quarenta por cento da energia da Suíça são produzidos por usinas nucleares, o restante principalmente por hidrelétricas. Como é que vamos preencher a lacuna nuclear e atender à demanda crescente por eletricidade - dois por cento ao ano - no futuro?

JC.F:. Este será um grande desafio. O plano de longo prazo até 2050 é que metade da diferença seja coberta por ganhos de eficiência. Isso vai exigir uma mudança de paradigma, já que nenhuma economia no mundo ocidental, no entanto eficiente, conseguiu sustentar o crescimento econômico e demográfico, reduzindo a demanda por eletricidade.
 
A outra metade será suprida por energias renováveis, mas até agora só produzimos 20% dessa parte. Esta pode ser aumentada através de hidrelétricas ou por energia solar, já que os custos diminuem, mas existem enormes incertezas. Meu palpite é que as usinas termoelétricas vão se tornar inevitáveis, mas elas vão causar estragos no balanço do dióxido de carbono.

Simon Bradley, swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy

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