Rio de Janeiro, 14 de Agosto de 2026

As Olimpíadas da era da pós-modernidade: Rio 2016

Por Maria Fernanda Arruda - "Os homens começaram a viver menos isoladamente, raças diferentes aprenderam a conhecer e a entender o outro melhor e, ao comparar suas forças e conquistas na arte, na indústria e na ciência, uma rivalidade honrosa surgiu entre eles, encorajando-os a atingir feitos ainda maiores”.

Sexta, 29 de Julho de 2016 às 09:45, por: CdB

Estamos às vésperas da abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Até que nos convençam do contrário, entendemos a Copa do Mundo de futebol como paixão nacional espontânea, o que não se repete quanto aos jogos

Por Maria Fernanda Arruda - do Rio de Janeiro:
Os Jogos Olímpicos da Era Moderna foram realizados pela primeira vez em 1896, justificados nas palavras do barão de Coubertin: "Os homens começaram a viver menos isoladamente, raças diferentes aprenderam a conhecer e a entender o outro melhor e, ao comparar suas forças e conquistas na arte, na indústria e na ciência, uma rivalidade honrosa surgiu entre eles, encorajando-os a atingir feitos ainda maiores”. Atletas de 14 países vão competir pela primeira vez em nome da lealdade e da amizade, unindo povos do mundo todo. Olímpia foi o espaço sagrado, onde, anunciada a cada quatro anos a Paz, honravam-se os deuses Hera e Zeus, com a prática dos esportes que revelavam a beleza e a habilidade dos corpos. O prêmio para o vencedor era o "kotinos", feito a partir de uma coroa de flores silvestres de oliveira. Durante a era romana os Jogos foram abertos para os cidadãos de todo o Império Romano. Os Jogos continuaram até 393, quando foram banidos em nome de nova religião, o cristianismo e o local foi povoado pelos novos fiéis até o fim do século VI, quando aluviões começaram a cobrir a área, só descoberta no século XIX. A Paz celebrada pelos gregos e que já havia sido desvinculada da vontade dos deuses seria com o tempo substituída, já na Era Moderna, pelo culto ao progresso. Os jogos não interromperam mais as guerras, mas foram interrompidos por elas: em 1908, 1940 e 1944.
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Maria Fernanda Arruda Devemos acreditar que se encontrem motivações dignamente humanas em muitos dos atletas que fazem de fato os "jogos"
Mas, caminhemos sem apressamentos e simplificações. Miremos nos homens de Atenas, para termos por certo que os deuses gregos foram substituídos por divindades novas, que se reuniram na criação do Panteão do Consumismo: Hera e Zeus não são mais venerados, mas sim a competência desumana produzida nos laboratórios e nos ginásios aparelhados por uma parafernália de equipamentos de sofisticação extrema - um mundo artificial, criando corpos desumanos, para que se obtenham a cada momento marcas maiores, quebrem-se os recordes de ontem, onde não cabe a discussão honesta sobre o doping, que foi transformada burocraticamente em debate mal intencionado, onde critérios e limites que distingam o aceitável e o não-aceitável são cada vez mais arbitrários, cedendo a conveniências. A celeuma que antecede ao encontro do Rio de Janeiro, marginalizando atletas russos, não merece explicação, por ser filha da mendacidade. Por que só agora? Por que só atletas russos? Não só foram e são incluídas nos Jogos novas modalidades, como foram e são incorporadas novas técnicas, novos recursos para formação, treinamento e desenvolvimento dos atletas. Não se construíram mais templos, substituídos por arenas imensas, investimentos em infraestrutura, levantando-se a cada quatro anos uma cidade nova, planejada pela especulação imobiliária. Nesses nossos tempos, é claro, as Olimpíadas são pós-modernas. Não há mais nenhuma similitude com relação  aos jogos gregos. E nem com aquilo que foi imaginado e desenhado em 1896. Agora, as Olimpíadas movimentam quantias gigantescas de dinheiro, orientam-se por estratégias de marketing, produzem ídolos e cedem a pressões políticas. A pós-modernidade levou ao gigantismo: no Rio de Janeiro estarão 10.500 atletas, representando 205 países, disputando 42 modalidades, com 306 provas, tudo isso concentrado em 19 dias de festividades promovidas para o Mundo todo através da televisão. Devemos acreditar que se encontrem motivações dignamente humanas em muitos dos atletas que fazem de fato os "jogos": o mundo de negócios, geridos por homens de negócios, certamente não sufocaram totalmente aqueles ideais. E mais: existe a persistência e a vontade de muitos e muitos jovens frequentemente vindos de segmentos mais humildes e que, no mundo desumanizado das sociedades capitalistas, não contariam com outra possibilidade de ascensão social. Houve até mesmo um momento especial de respeito à dignidade humana, já quando da realização da segunda Olimpíada da Era Moderna, em 1900, que teve a participação pioneira de 22 mulheres. Nesses jogos, podemos destacou-se a primeira campeã olímpica, Charlotte Cooper (1870- 1966), tenista britânica, que conquistou também 5 títulos em Wimbledon em sua carreira. Estamos às vésperas da abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Até que nos convençam do contrário, entendemos a Copa do Mundo de futebol como paixão nacional espontânea, o que não se repete quanto aos jogos olímpicos. Para eles, será necessária a propaganda massificadora das redes de televisão, faturamentos monstruosamente altos, proclamando as belezas dos eventos e incentivando o patriotismo sempre pronto a incendiar-se em eventos que desfraldem a bandeira nacional. O momento de crise aguda da Nação poderá ser esquecido, como foi o 1970, apogeu da violência e da tortura dos anos de chumbo, quando o ditador Medici erguia a Taça Jules Rimet, para orgasmo lúdico de um povo embevecido. Aceite-se o enfoque justo e equilibrado da Presidenta: torçamos pelos nossos atletas, em sua imensa maioria jovens vindos de famílias pobres e que realizam sua vocação e habilidade, com elas obtendo ascensão social e econômica. Isso poderá ser feito, sem que se confunda com as palavras falsamente inflamadas dos locutores do oportunismo. Ela não estará presente, afastada que foi pelas elites que odeiam a democracia, por não poderem admitir o povo. Dilma Rousseff não se admite como ex-presidenta, não aceita o crime de Michel Temer, de FHC, de Aécio Neves, de Eduardo Cunha. Desejando boa sorte aos nossos atletas, ela também deseja uma abertura bonita - sabe que não será, que primará pelo mau-gosto que a televisão tem ensinado ao povo, substituindo a música e a dança brasileiras pelo caipirismo urbano, pelo funk e pela pornografia coreografada. Incompetências e movimentação de dinheiros em negócios entre corruptores, entre eles pontificando as empreiteiras e fornecedores de materiais de construção, e corrompidos (os gestores da empreitada), as incompetências técnicas e administrativas, tudo isso será omitido e negado pela imprensa durante os dias festivos. E mesmo depois. Há muito o que lastimar. A lista de queixas é extensa. Começa por velhos problemas, como o fracasso dos planos de despoluição da Baía de Guanabara (palco das regatas da vela) e da Lagoa Rodrigo de Freitas (cenário do remo e da canoagem velocidade), passa pelo atraso na obra do velódromo (o evento-teste da modalidade foi cancelado em razão da demora da instalação da pista de ciclismo de velocidade) e chega ao receio, diante do corte de 12% do orçamento do Comitê Organizador, de que faltará dinheiro para a montagem final das instalações nos locais de competições, especialmente na região de Deodoro. Quando a um mês da abertura dos Jogos as autoridades envolvidas no que foi um assalto coletivo ao povo brasileiro falaram, seu pronunciamento foi o de cinismo aviltante: o presidente do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, os ministros Leonardo Picciani, do Esporte, e Alexandre de Moraes, da Justiça, e o prefeito Eduardo Paes defenderam os legados que a competição deixará para a cidade. Eles participavam então da inauguração de uma nave do conhecimento ao lado do Estádio Olímpico do Engenhão.Na oportunidade, o prefeito, mais uma vez, criticou "especialistas palpiteiros", que, segundo ele, desconhecem áreas menos turísticas da cidade. As declarações domésticas de otimismo receberam a bênção de Nawal El Moutawakel, presidente da comissão do Comitê Olímpico Internacional (COI) responsável pelo acompanhamento e pela fiscalização dos projetos. Depois de distribuir sorrisos em eventos pela cidade ao lado do presidente do Comitê Organizador Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, e do prefeito Eduardo Paes, a marroquina fez um balanço positivo da preparação brasileira, destacando o caminho percorrido nos últimos sete anos.
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Quem é Carlos Arthur Nuzman? É um ex-jogador de vôlei que ingressou na vida política nos anos 90, passando pela Confederação Brasileira de Vôlei e pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Atualmente é presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Como atleta, Nuzman conquistou diversos títulos do Campeonato Carioca, atuando pelo Botafogo, entre as décadas de 60 e 70. Em 1964, teve o privilégio de fazer parte da delegação brasileira que participou dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Após deixar as quadras, Carlos Arthur se inclinou para a vida política, em 1990, assumiu a Confederação Brasileira de Voleibol, tornando-se um seguidor e protegido de João Havelange e fazendo-se, à imagem de seu mestre, um trapaceiro. No comando da principal entidade olímpica nacional, Carlos Arthur Nuzman teve altos e baixos. Episódios como processos e acusações chegaram a balançar a credibilidade do político, mas nunca houve de parte de qualquer autoridade a intenção de provas seus desvios de conduta. Carlos Arthur é casado com a jornalista Márcia Peltier, e, em 2009, foi escolhido uma das 100 pessoas mais influentes do País. Nuzman tornou-se conhecido por sua petulância. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, chegou ao extremo de sua vaidade e arrogância além de dar uma banana ao princípio democrático da renovação de dirigentes. “Sem querer ser arrogante nem melhor ou pior do que ninguém, é preciso lembrar que não havia e não há ninguém tão preparado para esse cargo (presidente do COB) como eu” A ousada declaração está nas páginas amarelas de Veja, entre outras declarações de Nuzman ao repórter Leslie Leitão. E arrematou: “Não concordo com o projeto apoiado pelo governo que limita o mandato dos dirigentes esportivos. Certas batalhas levam tempo e demandam experiência para ser vencidas. Não sou insubstituível, mas meu perfil é único”. O Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 é uma associação civil de direito privado, com natureza desportiva, sem fins econômicos, formada por Confederações Brasileiras Olímpicas, pelo Comitê Olímpico Brasileiro e pelo Comitê Paralímpico Brasileiro. Sua missão é promover, organizar e realizar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, seguindo as diretrizes do Contrato da Cidade-Sede, do Comitê Olímpico Internacional, do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês) e da Agência Mundial Antidoping, e respeitando a legislação brasileira, a Carta Olímpica e o Manual de Regras do IPC. As responsabilidades de Nuzman, quando se considera o processo incompetente e desonesto que orientou o Comitê Organizador, é inquestionável. Mentiroso praticante, faltando poucos dias para a abertura dos jogos, somente 16 dos 31 prédios estavam liberados para as delegações. Carlos Nuzman esteve em Brasília, no dia 26, para participar de uma reunião com o governo federal e avaliar o andamento do cronograma olímpico, explicando que as obras não se atrasaram, mas que os atletas foram afoitos, chegando antes da data acertada, e quando o ministro Eliseu Padilha minimizou o fato de as reclamações da delegação da Austrália terem rodado o mundo. Para ele, os relatos não vão afetar a imagem do Brasil no exterior. E é verdade: já afetaram. Em seguida, noticia-se que os reparos de urgência, necessários para tornar habitável a Vila Olímpica, estão sendo executados com uso de trabalho escravo e desrespeito a regras legais básicas. Até onde seja possível mentir, a imprensa estará ocultando os crimes cometidos por um bando de assaltantes. Eventualmente, nesse mar de lama pesca-se verdades. Juca Kfury acusa: "Basta dizer que o autor da primeira derrota da organização dos Jogos foi também o artífice, segundo depuseram os envolvidos, do primeiro escândalo da Rio-16, quando os arquivos da Olimpíada de Londres foram furtados e copiados a mando dele, de Mario Cilenti, o argentino que caiu nas graças de Carlos Nuzman, presidente do Comitê Olímpico do Brasil e do comitê organizador –situação inédita em mais de 100 anos das Olimpíadas modernas. Mas ler, nesta Folha, em artigo do diretor de comunicação do CoRio-16, que "os melhores velejadores do mundo, pela honra de navegar sob os olhos do Cristo, de braços abertos sobre a Guanabara, aceitam conviver com águas que poderiam estar bem mais limpas" é de indignar. Numa só sentença há duas inverdades espetaculares: que os "velejadores aceitam" e que as águas poderiam estar "bem mais limpas". De fato, a águas estão é imundas, e não sobra alternativa aos competidores. Resta apenas torcer para que não tenhamos mais motivos para nos envergonhar. Porque, caso contrário, a síndrome da cadela no cio virará epidemia e tomará conta dos desorganizadores da Olimpíada e de parte da imprensa dos Olímpicos preocupada em ocultar ou minimizar as barbaridades, com gracinhas ou mentiras". Enfim, diante de um quadro tão lastimável, resta torcer para que não aconteçam misérias mais repelentes, para que os atletas vindos de tantos lugares possam realizar-se nas pistas e nas quadras, além de fazerem bom proveito das belezas do Rio de Janeiro. Resta rezar para que, em momento que se marca no mundo todo, com atentados e centenas de mortes, e em que pese a incompetência criminosa dos governantes interinos, os Jogos Olímpicos não tragam para a Cidade Maravilhosa a marca da violência extrema. Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.
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