Governos de Ciampi e Berlusconi promoviam uma caça militantes das Brigadas Vermelhas” enquanto negociavam, em silêncio, privilégios e parcerias com criminosos
17/12/2010
Achille Lollo
Em 1993, o diretor do Departamento Penitenciário (DAP) italiano, Nicoló Amato, assinou 350 comunicações internas dirigidas aos diretores das prisões com regime prisional especial, ordenando retirar 350 condenados por crimes mafiosos.
Por incrível ou absurdo que pareça – visto que se trata de um fato acontecido na Itália e não na Somália –, não há vestígio de quem autorizou as 350 comunicações, tanto que o referido diretor do DAP, perante o presidente da Comissão Parlamentar Antimáfia, Raffaele Pisanu, declarou: “Fui eu que, por iniciativa pessoal, em novembro de 1993, decidi retirar a aplicação do 41bis [prisão fechadíssima] aos condenados mafiosos, para acabar com os atentados a bomba”.
Depois, Amato teria confessado ao procurador-adjunto, Antonio Ingroia, e aos substitutos procuradores do Tribunal de Palermo, Nino di Matteo e Paolo Guido, que “minha proposta de retirar o 41bis aos mafiosos que haviam sido condenados era apoiada pelo chefe da Polícia, Vincenzo Parisi e pelo próprio ministro do Interior Nicola Mancino”. Hoje, evidentemente, Parisi (que se elegeu deputado pelo partido do primeiro-ministro Silvio Berlusconi) e o ex-ministro Mancino negam a revelação de Nicoló Amato. Dessa forma, ele será o único “capro espiatore”.
As bombas mafiosas
Em 1988, caiu a última direção nacional das Brigadas Vermelhas, fechando, assim, um ciclo político em que foram cometidos muitos erros que, direta ou indiretamente, favoreceram a legitimação do anticomunismo mais ferrenho, o uso dos corpos paralelos na metodologia da repressão (magistratura/polícia/carabineiros/serviços secretos) e a rápida afirmação das propostas neoliberais para desmontar as conquistas sociais dos trabalhadores.
Porém, a violência continuou, dessa vez, por mão dos mafiosos da Cosa Nostra que, durante quase quatro anos, castigaram os italianos com terríveis atentados a bomba, não só nas províncias do sul da Itália, mas também nas grandes cidades do norte (Florença e Milão) e na própria capital, Roma.
Até hoje, não foi bem esclarecido porque a máfia siciliana efetivou sanguinários atentados a bomba contra a população civil em Roma e no norte do país, enquanto as outras máfias (Ndrangueta, da Calábria; Camorra, de Nápoles; e Sacra Ruota, de Bari) continuaram sua tradicional luta silenciosa contra carabineiros e policiais.
Para o procurador do Tribunal de Palermo, Francesco Messineo, a Cosa Nostra realizou os atentados para chamar a atenção de alguns setores da classe política e, consequentemente, negociar com os centros de excelência do Estado italiano o novo status da máfia siciliana. De fato, o argumento central das negociações era a aceitação do processo de transformação da Cosa Nostra em grupo empresarial capacitado para gerenciar a economia ilegal. Um processo que criava, também, mecanismos de produção e investimento na chamada economia legal.
Na realidade, esse tipo de negociação implicava legitimar a penetração tentacular dos intermediários e, sobretudo, dos capitais da Cosa Nostra no mundo dos negócios legais e, sobretudo, das finanças, onde era, de fato, possível reciclar a maior parte os lucros das atividades ilegais.
Em troca, eram oferecidos de bandeja todos os velhos chefões mafiosos (os padrinhos) que, na nova organização da Cosa Nostra, não tinham competência nem capacidade de se relacionar com as novas organizações criminosas da economia ilegal globalizada ligadas, essencialmente, à produção e distribuição das drogas.
Nessa ótica, a “justificação” de Nicoló Amato de retirar o 41bis aos 350 mafiosos é uma forma de desviar as investigações e, assim, maquiar e manter no silêncio o verdadeiro acordo entre Estado e Cosa Nostra.
Por outro lado, o mea culpa de Nicoló Amato serve para mostrar aos velhos mafiosos que continuam presos ou escondidos, bem como às populações sicilianas, que a nova Cosa Nostra, na verdade, dobrou o Estado italiano.
Um Estado que – com os diferentes ministros da Justiça do governo Berlusconi – veio fazer campanhas de pureza política na França e no Brasil para obter a extradição dos “criminosos comunistas lá refugiados”. Cesare Battisti foi o último pivô de uma estratégia política e midiática que somente Walter Maierovitch, da revista Carta Capital, não entendeu, pois era mais fácil e conveniente seguir as orientações do embaixador italiano do que assumir uma posição crítica. De fato, era mais fácil legitimar as condenações dos tribunais especiais, arrancadas com declarações dos arrependidos, previamente combinadas, do que dizer aos italianos que uma grande parte da classe política italiana convivia com os “intermediários e os administradores dos fundos da Cosa Nostra”.
Achille Lollo é jornalista italiano.