Ao que tudo indica, o caso de Waldomiro Diniz está indo para a gaveta, antes mesmo de ter chegado ao tampo da mesa, pelo menos no que se refere à possibilidade de uma CPI e de outros desdobramentos.
Uma avaliação mediana do caso expõe que ele paralisou o governo e mobilizou as oposições, que passaram a ter a iniciativa no cenário político. O ex-presidente Fernando Henrique saiu do armário e tentou reunificar a frente conservadora trincada ao final de seu mandato, opondo os velhos coronéis herdeiros da ditadura ao jovem tucanato em busca de espaço próprio.
Em sua trincheira, o governo amargava a súbita solidão de seu capitão-do-time e sua exposição ao mundo das denúncias. Dizer que o governo afundava-se num "mar-de-lama" seria demais; engasgava-se com a água turva de um copo mal lavado, pois um de seus homens de confiança fora apanhado fazendo aquilo que todos fazem, e todos sabem que todos fazem, em maior ou menor escala, com pequenos ou baixos escalões de nosso expressivo mundo financeiro. O lodo do copo, entretanto, maltratara a máscara de vestal empenhadamente construída ao longo de décadas. Daí o mal estar, e a paralisia de quem viu respingado o vestido de vestal.
Mas olhado mais de perto, com lupa, microscópio e telescópio, esses tempos de crise do governo e desenvoltura das oposições mostra curiosas configurações. Afinal de contas, o que as oposições têm a oferecer? O que ofereceram, em meio à crise? Que me conste, nada. Nada? Não. Ofereceram "governabilidade", insinuando que poderiam garanti-la para o próprio governo de Lula. Traduzindo: ofereceram-se (são eles mesmos a única mercadoria que têm a oferecer) como melhores "administradores".
Vamos supor que num passe de mágica houvesse eleições amanhã, Fernando Henrique Cardoso ganhasse (nem sei se ele quer concorrer, só estou fazendo ficção científica) e Pedro Malan assumisse a Fazenda. O que mudaria? Que restaria ao ministro, senão ser acusado de ser um continuador de Palocci e de Meirelles? Que restaria ao presidente, senão ser acusado de continuar a administração de Lula com mais pompa e menos circunstância?
E se o concorrente fosse Serra? Veríamos a possibilidade dos partidos de esquerda lançarem sobre ele as acusações que se lançavam contra Lula: onde está sua experiência administrativa? Governou o quê? Foi ministro sim, mas isso não é suficiente. Ministro na concepção em exercício obedece, se não pertencer ao círculo íntimo do Planalto. Portanto ser ministro não é governar.
Toquei no nome de Serra. Aqui está um dos problemas das oposições. Há uma pressão enorme para que Serra venha a ser o candidato tucano à prefeitura de São Paulo. Como ele fala, se identifica e pratica o "paulistês político", ele é visto como um dos únicos candidatos, senão o único, que teria condições de bater Marta Suplicy agora em 2004, o que considerado como algo sine qua non para bater a reeleição de Lula em 2006. Entretanto, isso, se realizado, transformaria Serra em prisioneiro de sua vitória, alijando-o da disputa em 2006, onde então despontariam Alckmin e Aécio como potenciais cabeças de chapa em combinação como o coronelismo redivivo pelos nortes do país.
Esse é um nó. Mas o verdadeiro nó está mais embaixo, ou mais em cima. Governo e oposições estão se chocando porque disputam o mesmo espaço, porque estão afinando aspectos diferentes de uma linguagem comum, que é o "administrês". Explico-me: os velhos coronéis conservadores, cujo foco de concentração é o PFL, são herdeiros de um conceito da ditadura, o da "República sem povo". "Povo" é bom para dançar no Pelourinho, nos Sambódromos, nos estádios. Política é outra coisa.
Com uma conotação diferente, o tucanato também compartilha desse conceito: as grandes decisões devem ficar para os capazes, os competentes, os arautos da modernização compenetrada, dependente e financeiramente estável. Povo é bom para ser encaminhado para as prateleiras do consumo, aquele que conseguir chegar; q