Rio de Janeiro, 11 de Outubro de 2026

As lições da orfandade

Sexta, 12 de Agosto de 2011 às 08:35, por: CdB

Dia dos Pais quase nunca foi dos mais alegres em minhainfância. Perdi meu pai aos nove anos de idade e a partir daí essa data era umtanto tabu, onde todos procuravam fazer-me esquecer a única dor que jáexperimentara em uma vida coberta de carinho: eu não tinha pai. Era órfã. Palavraque soava como um soco no estômago ou um dardo no coração: órfã, órfã, órfã.

O câncer levara meu pai, homem bonito, alto, risonho e carinhoso,aos 46 anos de idade. Deixou um rastro de luto e lágrimas a marcar para semprerosto e olhar de minha mãe, que largou um pedaço de si própria no enterro doesposo profundamente amado. Diziam-me as coisas mais desajeitadas e odiosassobre o tema: que eu devia aceitar a vontade de Deus, que havia sido melhorpara ele, que agora eu tinha que ser muito boazinha para mamãe etc.

Nunca fui de entregar-me facilmente e baixar a guarda. E comesse importante episódio de minha vida não foi diferente. Resolvi que se eu nãotinha pai, podia viver sem ele. E que não ia dar a ninguém o gosto de me ver tristee chorando. Trinquei meus pequenos dentes com raiva, apertei os punhos e partipara a luta pela alegria que parecia me haver sido roubada para sempre com odesaparecimento do princípio da realidade do meu horizonte.

Não foi fácil. O coração apertava quando via as amigas ecolegas com seus pais, celebrando o Dia dos Pais e aniversários e Natais,povoados da força e do carinho que não eram presentes em minha casa e em minhavida. Embora minha mãe tentasse ser ao mesmo tempo pai e mãe, não conseguia. Ea falta da presença paterna era duramente sentida como uma amputaçãoirreparável.

Mas a orfandade ensinou também algumas lições que tenteiaprender o melhor que pude. Com ela aprendi que nada na vida pode-se considerarcomo já conquistado. Por tudo há que lutar com bravura e valentia, persistênciae teimosia. A vida não se rende em preguiçoso "a priori”. Tem que ser buscadacom unhas e dentes e toda luta é pequena para conservá-la e readquiri-la a cadasuspiro e a cada instante. Assim cresci, assim me formei, assim conheci o homemque hoje é pai de meus filhos e decidi que uma vez que a paternidade povoounovamente minha casa e minha vida, não iria deixá-la ir embora tão facilmente.

Assim vi meus filhos crescerem, perdi noites de sono porcausa deles, sofri com suas hesitações escolares e vitais, alegrei-me com seussucessos, orgulhei-me, envergonhei-me, engoli sapos e aceitei críticas. Aorfandade fizera de mim uma lutadora quase beligerante, perfil que a famíliaque formei suavizou, mas não chegou a eliminar.

Porém, a experiência definitivamente sanadora que colocoucomo um selo em meu aprendizado de órfã foi o aprendizado da oração. Em umretiro que fiz, já adulta, experimentei finalmente a presença de Deus Pai,fonte de onde jorra toda paternidade. Acolhi em lágrimas o dom de poderpronunciar "Abba Pai” e sentir que me dirigia a uma pessoa que me envolvia comseu amor. E enquanto isso acontecia, era como se todo o sentimento guardado ereprimido houvesse formado um tumor túrgido e doloroso que agora drenava umlíquido viscoso e liberava a carne para, viva, novamente pulsar e palpitar.

Foi uma lição quase definitiva, essa. Porque sinto que elasó se faz completa hoje, quando contemplo, deslumbrada e agradecida, apaternidade de meu filho que carrega em seus braços, sorridente, a pequenaMaria Antonia. Nesta paternidade vejo a paternidade interrompida em minha vidare-fazendo seu ciclo e recomeçando a girar em novo ciclo feito de amor e fecundidade.

Volto a celebrar detodo coração o Dia dos Pais. Posso celebrá-lo com redobrada alegria. E aslições que aprendi, tento humildemente comunicá-las aos outros. Por isso lhesdigo: aproveitem seus pais. Dêem-lhes muitos, infinitos abraços e beijos. Digamaté cansar que os amam. Cuidem deles para que fiquem mais tempo, o maior tempopossível, junto de vocês.

Mas, sobretudo, não percam a ligação e a sintonia com apaternidade divina. Dali jorra uma fonte pura que é graça e vida em abundância.Quem estiver ligado a esta fonte jamais se sentirá sozinho ou órfão. Não éà-toa que a oração que Jesus ensinou e deixou como legado começa com a palavraPai. Quem entende o que esta oração significa, sabe que não é órfão e éinfinitamente amado. Feliz Dia dos Pais para todos.

[Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito- ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.
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