Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

As grandes e as pequenas narrativas

Por Flavio Aguiar - O movimento por que passa o PT e sua ascensão, pelo grupo da Presidência, ao Palácio do Planalto, é análogo àquele desacerto da sensação ilusória da pós-modernidade. O "pós-PT", se me permitem o neologismo, perdeu contato com sua grande narrativa de construção da revolução republicana no Brasil. (Leia Mais)

Domingo, 20 de Março de 2005 às 18:59, por: CdB

Afinal saiu a comemoração dos 25 anos do PT. O que deveria ser uma explosão de alegria, transformou-se numa festa algo tímida, planejada e feita de forma lenta, gradual e. insegura. Uma das ilusões da ilusória pós-modernidade é a de que dissolveram-se em definitivo as grandes narrativas, e que isso é salutar. Em decorrência, precisaríamos agora prestar atenção com exclusividade às pequenas narrativas, aquelas das diferenças, do local, do grupo, do próprio. As grandes narrativas trariam sempre a tendência de aplainar as diferenças, de impedir as necessárias negociações entre elas, em nome de uma hegemonia sempre excludente. Assim teria se passado com a grande narrativa dos ideais da modernidade, construídos na Europa e irradiados pelo mundo; por decorrência, assim teria acontecido com as grandes narrativas revolucionárias, que também recobriram as diferenças por serem herdeiras daqueles ideais e práticas advindas do iluminismo, dos nacionalismos emergentes.

Nem houve dissolução das grandes narrativas, nem a perda de contato com elas foi necessariamente algo de salutar para o pensamento, ou os pensamentos. Aconteceu algo de mais simples, por um lado, e de bem mais complexo por outro. O declínio das teorias revolucionárias e das sociedades socialistas foi acompanhado da veloz e brutal hegemonia do capital financeiro num sem número de sociedades nacionais, propagandeada numa mídia dela de todo dependente como uma globalização libertadora.

Tudo isso junto despertou nos espaços culturais a percepção e a descoberta de que não eram apenas "as esquerdas", ou "os progressistas", ou os "dissidentes", ou os "alternativos" que ensaiavam suas grandes narrativas como herdeiras da história. O lado conservador também tinha ele mesmo suas "grandes narrativas", que, no fundo, sempre remontavam à idéia de que o atual estado da arte da desigualdade e da iniqüidade consentidas e explicadas economicamente eram o fim da história.

Nisso há mesmo até um duplo sentido: a história acabara, de um lado; de outro, esse consenso em torno da inevitável iniqüidade das relações sociais e internacionais era a finalidade da história. E as grandes narrativas do lado conservador, sem menos sofisticadas do ponto de vista analítico, eram incrivelmente mais sedutoras e eficazes, inclusive porque abertas a discernir sempre nichos de mercado para a afirmação das diferenças, cujos reclamos podem também ser transformadas em vitrines, mercadorias e propostas de "pequenas ascensões sociais".

*O Fórum Social Mundial e suas edições nada mais é do que a tentativa dramática, dramatúrgica, cênica e demiúrgica de reatar, na pluralidade, a grande narrativa herdeira dos ideais da modernidade numa escala não prevista nem mesmo pelos generosos revolucionários do século 19 e do século 20, que não deixaram de todo de ser também herdeiros da unidimensionalidade do pensamento positivista e determinista, esquecendo que a construção de uma sociedade socialista exige, pelo menos no horizonte presente, não no sempre removido, o chamado da democracia e a sedução da liberdade.

*O movimento por que passa o PT e sua ascensão, pelo grupo da Presidência, ao Palácio do Planalto, é análogo àquele desacerto da sensação ilusória da pós-modernidade. O "pós-PT", se me permitem o neologismo, perdeu contato com sua grande narrativa, que reunia suas tendências numa dramaturgia demiúrgica, que era a da construção da revolução republicana no Brasil e sua abertura, com o país, para a dimensão internacional de sua própria construção da liberdade como patrimônio coletivo. Em outro momento discutirei os passos dessa revolução republicana em que tenho insistido, sempre presente, sempre necessária, e sempre truncada ou postergada de forma precisa, segura e imediata. Importa registrar que em negociações diversas, com partidos de todo alheios aos valores republicanos, em negaceios e abraços com as próprias imagens desconstruídas e reconstruídas na mídia conservadora, o partido

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