Rio de Janeiro, 16 de Março de 2026

As grandes alamedas

Por José Luís Fiori - Neste artigo escrito em homenagem ao saudoso professor da USP Eduardo Kugelmas, o colunista registra que está em curso uma mudança importante na América Latina, com relação à história da própria esquerda e de todos os sistemas políticos do continente. (Leia Mais)

Sábado, 09 de Dezembro de 2006 às 09:25, por: CdB

"Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir uma sociedad mejor"
Salvador Allende, Último Discurso, 11 de setembro de 1973


O filósofo francês Michel Foucault começa seu livro sobre "As Palavras e as Coisas" citando uma "classificação de animais" de uma enciclopédia chinesa descoberta por Borges, e que parece, à primeira vista, muito divertida. Para os chineses, os animais se dividiriam em "a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, c) sereias, d) fabulosos e) cães em liberdade, f) que se agitam como loucos, g) inumeráveis, h) que acabam de quebrar a bilha, i) que de longe parecem moscas, j) et cetera, l) incluídos na presente classificação, m) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo". Na verdade, um exercício lógico de construção de um conceito e de uma identidade, num determinado momento milenar do conhecimento biológico chinês.

O estranho, quase divertido, é perceber a semelhança que existe entre esta lista milenar de animais e as classificações recentes da esquerda latino-americana feitas pelos conservadores. Durante a Guerra Fria, a esquerda foi considerada uma força política coesa, e uma ameaça homogênea. Mas agora, segundo os conservadores, as suas divisões e classificações internas são tantas e tão confusas que lembram a classificação dos animais chineses.

No início, só se distinguiam os "normais" e "equilibrados" dos nacionalistas e populistas, mas agora o quadro se complicou, e já se fala normalmente de esquerdistas "a) moderados, b) radicais, c) do bem, d) do mal, e) demagógicos, f) refundacionistas, g) etno-sociais, h) modernos, i) espalhafatosos, g) anacrônicos, h) autoritários, i) pós-modernos, f) nacional-populares, g) pragmáticos, h) nacional-desenvolvimentistas, i) raivosos, j) narcísicos, l) histriônicos, m) pré-históricos, e até m) nazi-fascistas". No caso da Enciclopédia Chinesa, a confusão pode ser atribuída à Biologia da época. Mas no caso da esquerda latino-americana, e da sua vitória eleitoral, neste ano de 2006, não é provável que a culpa seja apenas da Ciência Política.

É perfeitamente compreensível que alguns não gostem do que está acontecendo. Mas qualquer observador mais atento e objetivo percebe que está em curso uma mudança importante na América Latina, uma mudança com relação à história da própria esquerda e de todos os sistemas políticos do Continente. Basta lembrar que neste início de século XXI, todas as vitórias da esquerda foram democráticas, por maiorias contundentes e com o apoio ativo de populações que estiveram até hoje isoladas e "recluídas", nas montanhas indígenas, no submundo urbano, e nos grotões do atraso e da dominação coronelista.

Tudo isto, depois de 20 anos de ditaduras militares de direita, em quase todo Continente, e mais 10 anos de governos neoliberais. Frente a isto, o que se destaca como denominador comum desta nova onda de esquerda, na América Latina, é sem dúvida nenhuma a vontade massiva de mudar, a vontade de não voltar mais para trás, mesmo quando ainda não estejam claras as idéias e os caminhos imediatos do futuro. A esquerda latino-americana governou muito pouco, durante o século XX, e na hora da sua vitória, no início do século XXI, os socialistas e a social-democracia européia estão vivendo uma profunda crise de identidade.

Por isso, o que surpreende neste momento não é a imprecisão das idéias e dos projetos imediatos dos governos eleitos, mas a sua unidade em torno de um grande objetivo central: mudar definitivamente o rumo elitista, racista e subalterno da história latino-americana. Esta novidade histórica exige um renovado esforço teórico, porque já não cabe nos conceitos clássicos da sociologia latino-americana, que se transformaram em jargões, como no caso, por exemplo, do "populismo", que quer dizer tudo e não significa mais nada.

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