Rio de Janeiro, 25 de Abril de 2026

As Eleições e a Esquerda

Por Boaventura de Sousa Santos - A caminhada triunfal de Cavaco Silva é menos mérito seu do que demérito da esquerda. O importante é que haja segundo turno para que finalmente os portugueses vejam claramente as escolhas que estão em causa. (Leia Mais)

Segunda, 23 de Janeiro de 2006 às 18:25, por: CdB

Num país que ainda recentemente mostrou ser maioritariamente de esquerda, causa estranheza que o candidato da direita nas próximas eleições presidenciais tenha uma vantagem tão forte em relação aos candidatos de esquerda a ponto de poder ganhar as eleições na primeira volta. Não se pode atribuir tal fato a um tão mau desempenho do governo socialista que os cidadãos pretendam manifestar a sua frustração, votando massivamente no candidato da direita. Tão pouco se pode atribuir ao carisma, às qualidades excepcionais, à cultura política, ao passado nobre ou ao populismo de Cavaco Silva, pois este parece desprovido de qualquer deles. Não tem carisma nem é populista. Entre os portugueses cultos é talvez o mais ignorante; os governos de que foi primeiro-ministro são responsáveis pela crise em que nos encontramos (esbanjamento dos fundos estruturais, afundamento da educação e, em especial, da universidade pública, subordinação aos lobbies da construção civil, aumento do défict, recusa em enfrentar o imperativo da requalificação da nossa economia).

Não me restam dúvidas de que a caminhada triunfal de Cavaco é menos mérito seu do que demérito da esquerda. Que a esquerda não tenha sido capaz de se congregar à volta de um só candidato é certamente grave. Mas é-o muito mais, e quase grotesco, que nem isso tenha sido possível no seio do partido socialista. A razão principal para tal dislate está, sem dúvida, no primeiro-ministro. Ou José Sócrates não pensou que os resultados das eleições seriam irrelevantes para o seu projeto de governo, ou admitiu mesmo que governaria melhor com um candidato de direita do que com um candidato de esquerda. Este é um erro grave ou um prenúncio grave. É um erro grave se não considerou o que eu chamaria o precedente Sampaio.

Trata-se do entorse constitucional do Presidente ao dar instruções de governo a Santana Lopes. Foi um ato de desespero infeliz na expectativa de com ele confessar e corrigir o erro grave de lhe ter dado posse. Quaisquer que tenham sido as circunstâncias, o precedente está criado e Cavaco não deixará de recorrer a ele no momento oportuno. Mas a atitude de Sócrates pode ser um prenúncio grave: a de que o seu programa eleitoral continuará a ser descaracterizado e, como tal, governar será mais tranquilo com um presidente de direita. As inqualificáveis afirmações do ministro das finanças - impensáveis na boca de qualquer outro ministro socialista europeu - sobre a insustentabilidade da segurança social são um sinal de que estamos menos perante um erro grave do que perante um prenúncio grave.

Perante isto, ao povo de esquerda só resta ter mais juízo do que os políticos que o representam. E assim ocorrerá transformar-se a divisão da esquerda numa oportunidade para votar por convicção. Sendo várias as esquerdas em presença, não há nenhuma razão para não votar em consciência. Dois candidatos (Soares e Alegre) representam a esquerda renovada. Louçã representa a esquerda nova. Jerónimo representa a esquerda que vê na renovação ou na novidade a rendição. Estas são a gama de opções dentro da esquerda. Resultado de um erro sem precedente, pode transformar-se numa oportunidade única: a oportunidade para votar por convicção. E votar em massa.

O importante é que haja segundo turno para que finalmente os portugueses vejam claramente as escolhas que estão em causa. Caso contrário, os portugueses de esquerda terão desperdiçado a sua energia cívica: no afã de recuarem quem, de uma forma ou de outra, está a seu favor, terão aberto o caminho a quem estará contra si.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

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