Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

AS DUAS FACES DO CRIME

Terça, 31 de Maio de 2011 às 08:10, por: CdB

Por CarloZaraujo 31/05/2011 às 13:46

O "AS DUAS FACES DO CRIME" filme é uma realização interessante porque projeta o ser humano em sua essência psicológica profunda.

O Filme

Richard Gere é Martin Vail, um brilhante e audacioso advogado que aspira à fama. Quando Aaron Stampler (Edward Norton), um coroinha de Kentucky, é acusado do assassinato de um arcebispo de Chicago, Martin resolve defendê-lo pois vê neste caso a sua grande chance.

Trama para lá de intrigante que prende a atenção, com um roteiro excelente e um ritmo rápido. Sem contar o final, é claro, que é totalmente imprevisível e chocante. Edward Norton ganhou uma indicação para o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Em Chicago, um arcebispo é assassinado com 78 facadas. O crime choca a opinião pública e as suspeitas recaem sobre um jovem de 19 anos. Ele foi preso com as roupas ainda cobertas de sangue da vítima. No entanto, um ex-promotor que se tornou um advogado bem-sucedido se propõe a defendê-lo, sem cobrar honorários, tendo dois motivos para isto: adora aparecer na mídia e sente necessidade de vencer.

Nesta espetacular produção o humanismo se confronta com o positivismo jurídico. O marketing da advocacia mercenária, desligada de valores humanos, leva o criminalista, no caso do filme, mesmo induzido a erro, a excluir-se da culpa.

Vivemos um relativismo moral, em nossa sociedade. Este é o desafio da psicanálise pós-moderna. O advogado passava por um processo de catarse de antigos processos de culpa da época em que era promotor, tentando reparar erros de julgamento quando passou a acreditar mais na inclinação natural do ser humano para a virtude. Se as pessoas eram culpadas por algo mau, nem por isso deixavam de ser intrinsecamente boas.

Ele leva o assassino do religioso ao tribunal e consegue absolvê-lo argumentando que o caso deu-se por falha psicológica do acusado, demonstrando o que seria um caso de psicose histérica com dupla personalidade.

O arcebispo era sexualmente perverso. Numa das investidas deste sobre o jovem, este teria sido acometido de uma dissociação da personalidade, entrado em transe e nesse estado crepuscular da consciência vigil esfaqueou a sua vítima.

Aaron, como se chamava o assassino, era um rapazinho tímido e gago que perdera a mãe e sofrera maus-tratos do genitor. Por exigência do arcebispo protagonizara uma cena ?pornô? com outros dois jovens. Nas crises alguém, chamado Roy, assumia a vida de Aaron e este não se recordava desta outra personalidade ao acordar. Quase no final do filme o criminoso tem um ato falho que o denuncia: na verdade Aaron é que era produto da imaginação de Roy. Este o criara conscientemente, lucidamente, convenientemente, para fugir da pena de morte.

Neste momento o advogado tem os seus valores confrontados, porque Roy era imputável legalmente como um sociopata e não um psicótico.

Evocamos a psicanálise, para atender este caso, porque a psiquiatria forense não é capaz de entender a natureza do ato praticado. No entanto a psiquiatria forense caracteriza o dolo quando o criminoso entende a natureza de seu ato, mas não determina que fatores patológicos estão envolvidos claramente. Estes seriam os sofrimentos pelos quais passou até os cinco anos de idade durante os quais se sentiu abandonado pela mãe que morreu e pelo pai que o maltratava. A possibilidade de passar do sentimento à ação, mediante esta fixação, não existia em Roy, mas estava presente em Aaron que era uma personificação fantasiosa. Daí estabeleceu-se o parricídio do qual foi vítima o arcebispo. Este o recolheu das ruas e Roy dizia que o amava como a um pai. Mas, pelo comportamento criticável do padre, houve a irrupção do ódio contra o genitor que o menino pode fantasiar. Eliminando-o poderia ficar com a mãe. A esta altura a mãe era figurada por uma jovem, Linda, de quem se dizia apaixonado, mas que também acabou por assassinar. Então passa do sentimento à ação na fantasia infantil castrativa, dando vazão à fixação infantil, razão talvez pela qual mutilou tantas vezes o corpo daquele homem de tantas máscaras.

O filme é uma realização interessante porque projeta o ser humano em sua essência psicológica profunda. O público especializado e em geral, tão ?versado? em termos psiquiátricos, não vê o que está cada vez mais diante do seu nariz, uma das maiores ameaças à nossa higiene mental: a fixação inconsciente da libido nos cinco primeiros anos da criança que pode levá-la do sentimento castrativo da libido suprimida à ação criminosa.

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