Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

As armadilhas do clima

Por João Suassunaé - Existe a tendência de se continuar a vender a ilusão de que a transposição é a única forma de resolver os problemas do abastecimento nordestino, e o povo continua a acreditar nisso. (Leia Mais)

Terça, 10 de Fevereiro de 2004 às 07:22, por: CdB

O pássaro carão quando canta no sertão é sinal de muita chuva. Contrariando todas as previsões meteorológicas de um ano seco, a ave deu os seus primeiros piados no dia 11 de janeiro de 2004, trazendo fortes chuvas para a região e alegrando os sertanejos que gritavam alegremente: "canta carãozinho de Nossa Senhora!", numa espécie de agradecimento à chegada daquela situação hidrológica salvadora que fazia anos não acontecia. Passados 20 dias de intensos aguaceiros, o resultado foi desastroso: um sem-número de açudes estourados, estradas intransitáveis, muito sofrimento e, infelizmente, mortes de muitos nordestinos. A situação está sendo comparada àquela verificada em 1924, quando ocorreu cataclismo semelhante no Nordeste, vindo ao encontro da crendice popular de que os anos terminados em 4 trazem bons invernos (os anos de 1914, 1924, 1964 e 1974 foram muito chuvosos e não houve seca propriamente dita em nenhum dos outros anos terminados em quatro). Mas o fato é que já existe uma boa parcela da população nordestina munida de espingardas de grosso calibre para calar, de vez, a voz daquela ave agora indesejada. Não podia ser diferente: em curto espaço de tempo, choveu em algumas regiões do Nordeste, dez vezes a média histórica prevista para o mês de janeiro. Açudes como o Boqueirão na Paraíba, que abastece Campina Grande, com cerca de 420 milhões de m³, e o Castanhão no Ceará, com 6 bilhões de m³, próximo a Fortaleza, encheram com as fortes chuvas, fatos inusitados pois no mês dezembro de 2003 estavam praticamente vazios. Foi realmente um dilúvio bíblico, o que veio a provocar estado de calamidade pública em quase todo o Nordeste.
Para nós pesquisadores que lidamos no dia-a-dia com esses assuntos, a situação criada no Nordeste não foi motivo de surpresa. Estranhamos apenas a intensidade com que o fenômeno aconteceu. A explicação foi a seguinte: ocorreram simultaneamente uma frente fria vinda do sul do país, com grande energia, que se fixou sobre o Nordeste, aliada à antecipação, em janeiro, da ação da zona de Convergência Inter-Tropical (massa de ar carregada de umidade que chega ao Nordeste proveniente da região do equador e que normalmente costuma agir no mês de fevereiro), somada ainda ao aumento de temperatura do Atlântico sul, que causa intensa evaporação e proporciona as instabilidades condicionais, levadas, invariavelmente, pelos ventos alísios ao interior da região. As chuvas provenientes desses três fenômenos somados, ao caírem em regiões de geologia cristalina, onde os escorrimentos superficiais são maiores do que a proporção de água que se infiltra no solo, causaram as fortes enchentes divulgadas pela mídia nos últimos dias e que assustaram todos os brasileiros.

Cremos que acerca dessas questões alguns pontos precisam de um maior esclarecimento. Primeiramente, é preciso alertar a população que as fortes chuvas caídas não acabaram com os problemas hídricos do Nordeste. Apenas alguns aspectos foram atenuados. A geração de energia, por exemplo, foi um desses aspectos. Ao final do ano de 2003, o reservatório nordestino (somatório volumétrico de todas as represas responsáveis pela geração de energia no Nordeste) chegou ao seu ponto crítico (com cerca de apenas 10% de seu volume útil), sendo necessário o acionamento do parque de termelétricas, em apoio às hidrelétricas, para o suprimento da demanda de energia da região. E essa conta ficou demasiadamente cara para a população usuária da energia, pois ela já pagava pela possibilidade de vir a usar o sistema alternativo de térmicas (o chamado "seguro apagão") e, atualmente, paga também pelo seu uso, o chamado encargo de aquisição de energia emergencial, chegando a acrescer, em sua conta de energia, um percentual de cerca de 2% do valor do consumo. Cremos que o governo Lula, um governo dito popular, teria que chamar para si a responsabilidade do pagamento desses tributos, assumindo-os em sua totalidade e não transferindo-os para o povo, o qual, diga-se de passagem, é

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