Por Artério Arteiro/Pitú 21/05/2011 às 14:57
A questão e o tratamento das artes e da cultura dentro das rádios livres.
Em se tratando de uma rádio livre, é essencial também termos em mente a
problemática da cultura e das artes nos meios de comunicação.
Tendo elas como
expressão máxima de um povo, e como construção livre, permanente e dinâmica,
proveniente das relações entre os indivíduos, suas práticas atuais, seu passado e
seus objetivos futuros, é totalmente incabível aceitar a monopolização destes
processos e de sua divulgação. Mas é exatamente isto que acontece. Arte e cultura,
como tantas outras coisas, tornaram-se um produto. Um produto que têm de ser
vendido e gerar lucro. Lucro não para os artistas ou para as comunidades que
produzem a arte e que constroem diariamente o processo que chamamos de
cultura, e sim para aqueles que, através da apropriação privada ou governamental
dos meios de produção, fruição e divulgação cultural, decidem o que é cultura e o
que não é.
Na prática, vemos a dificuldade de novos artistas em viabilizarem
financeiramente os seus projetos. E quando conseguem, não há espaço para que
eles possam mostrar a sua arte. Quantos músicos não estão escondidos por aí, sem
espaço para mostrarem suas criações, enquanto bandas criadas artificialmente por
grandes gravadoras têm cadeira cativa nas rádios de maior audiência? Quantas
bandas alternativas e de grande qualidade passam despercebidas pela maioria da
população por que as grandes rádios escolhem o que devemos ouvir, e não por
acaso, são sempre as mesmas bandas e as mesmas músicas? É o ruído monótono
novamente destroçando nossos processos criativos.
O direito de se expressar
artisticamente tem de estar fortemente relacionado com o direito à divulgação,
apresentação e fruição da arte e também com as condições de produzi-la, senão
vira mera demagogia barata onde acabaremos declamando poesias em frente a
espelhos. Os monopólios no setor artístico-cultural empobrecem a sociedade de
várias maneiras, e enriquecem os mesmos grupos que já dominam vários outros
setores da sociedade. É um braço dentre tantos outros, de uma lógica perversa.
Ao criarmos uma rádio livre, buscamos exatamente o contrário. Abrir as portas
para aqueles que sempre as viram fechadas, ligar o microfone para artistas que
sempre tiveram este direito negado, aumentar o volume para a criatividade livre
que resiste contra a arte ?oficial? e a arte ?mercadológica?. Se para os
comerciantes radiofônicos da arte uma música da Mongólia, uma música clássica de
dez minutos, um rap amador ou um conto de um jovem escritor não merecem ser
ouvidos, uma rádio livre há de montar a antena para que estas vozes não se calem
jamais. Não há porque uma população ser privada da arte e da cultura que ela
mesma produz, e acreditar no contrário seria de uma insensatez que beira o
estúpido.
URL:: http://coletivoarterizar.blogspot.com/ e http://radiotarrafa.libertar.org/