Uma das centenas de pessoas entrincheiradas na Vila Surumu, distrito de Pacaraima, para resistir à retirada iminente dos não-índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, a senhora indígena Valdísia da Silva, da comunidade Prakuár, se apresenta espontaneamente e pede para conceder entrevista. Diz morar ali desde que nasceu e estar “engasgada” para falar o que sente. Ela não poupa críticas aos parentes que defendem a expulsão dos arrozeiros da área.
- Se ficar essa área liberada, ninguém faz nada. Nossos irmãos do Conselho Indígena de Roraima (CIR) só dão dor de cabeça para nós, empatam a pescaria, não querem trabalhar, só querem ficar dormindo e comendo sem fazer nada - disse a senhora.
Para Valdísia, a população da área já perdeu sua identidade cultural há muito tempo e deve se adequar à realidade:
- Nós não somos mais índios, nós somos aculturados, somos brancos já. A maioria é casada com branco, tem filho branco, marido preto e não sou contra isso.
Os arrozeiros, segundo a senhora, sempre ajudaram as comunidades da área. Quem deveria sair, ressaltou, “são esses que são contra nós”.
Ainda na empoeirada estrada de acesso à Vila Surumu, a índia Ilda Silva, que pegava carona na carroceria da caminhonete de um arrozeiro, também saiu em defesa dos patrões e criticou a operação da Polícia Federal em curso:
- Essa polícia não devia fazer isso com a gente. Precisamos trabalhar. Quando ele (Quartiero, líder dos arrozeiros) era prefeito, dava rancho (comida) para o colégio. Hoje, nós estamos machucados.
A índia acrescentou que os patrões são responsáveis pela produção de arroz que “vai para Pacaraima, Boa Vista, todo o Estado”.
Nas proximidades da Vila Surumu estão as fazendas do líder dos arrozeiros Paulo César Quartiero. Cinco grandes máquinas agrícolas e dezenas de pneus reforçam a barreira montada, que tem as bandeiras brasileira e venezuelana estendidas (a fronteira está a poucos quilômetros dali).
Tática de guerrilha
Os arrozeiros que ocupam a faixa sul da Raposa Serra do Sol utilizam táticas de guerrilha para impedir o cumprimento do decreto de homologação da terra indígena. De domingo até agora já foram destruídas três pontes, lançadas bombas caseiras e duas pessoas foram feitas reféns na região.
Com a inicio da Operação Upatakon 3, no dia 27 de março, diversas manifestações contrárias à operação foram realizadas no Estado. As manifestações começaram no dia 30 quando populares bloquearam por mais de 2 horas a ponte do Cauamé na BR-174, entrada de Boa Vista, pedindo a retirada imediata dos policiais federais no Estado.
Ainda no dia 30, dois ônibus com aproximadamente 70 ‘sem-teto’ da invasão brigadeiro de Boa Vista, chegaram ao Surumu para apoiar os rizicultores. Para integrar os protestos a eles teria sido prometido a doação de lotes de terras em Pacaraima.