Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2026

Arrastões elevam risco de 'justiceiros' nas ruas do Rio

A busca da população por uma resposta rápida aos assaltos ocorridos no último fim de semana nas praias do Rio pode provocar o crescimento da violência.

Sábado, 26 de Setembro de 2015 às 11:50, por: CdB
Por Redação, com ABr - do Rio de Janeiro: A busca da população por uma resposta rápida aos assaltos ocorridos no último fim de semana nas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro pode provocar o crescimento da violência, temem especialistas em segurança. Na internet, não é difícil encontrar quem defenda a ação de gangues de justiceiros, grupos organizados para atacar suspeitos de crimes cometidos por jovens e denunciados na imprensa. Para o sociólogo do Laboratório de Análises da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ignácio Cano, as autoridades precisam agir para evitar o agravamento dessa situação e o aumento do número de episódios de “justiça com as próprias mãos”. — Não só os criminosos podem se armar mais como também um monte de gente que nunca cometeu crime pode achar que é melhor se armar porque pode ser vitimado. Isso não vai resolver o problema e vai gerar mais insegurança — alerta o especialista. Ele lembrou do caso, ocorrido no último domingo, em que um grupo espancou jovens retirados à força de um ônibus por suspeitarem da participação deles em assaltos.
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O tempo nublado inibiu a presença de banhistas nas praias do Rio
O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, também manifestou preocupação com a ação de grupos de justiceiros e disse, na última segunda-feira, temer "onde isso pode parar". Beltrame criticou decisão da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso que reforçou que os adolescentes só podem ser apreendidos se houver flagrantes. A decisão foi tomada após um pedido da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, motivado por operações policiais que detiveram adolescentes que seguiam em ônibus da zona norte para a zona sul. Para Beltrame, a polícia ficou "engessada". "Essa medida de nos tirar a prevenção pode resultar em pessoas que queiram fazer justiça com as próprias mãos. Não vamos permitir, mas é mais um esforço que a polícia terá que fazer". Para Cano, o pronunciamento de Beltrame também é preocupante porque mostra a falta de um trabalho de inteligência. "Passa a impressão de que a prevenção tem que ser feita de forma ilegal, porque a decisão judicial só dá conta de reafirmar a lei, que diz que pessoas só podem ser presas em flagrante ou por decisão judicial. Isso, obviamente, não é verdade", diz ele, que considera que ações como parar os ônibus que vem da zona norte ineficientes e preconceituosas. — Quando a polícia e o Beltrame dizem que tem de parar todo mundo nos ônibus, estão confessando que não há inteligência, que não há investigação e que não se sabe quem são os responsáveis — diz. Para ele, o monitoramento de grupos que se organizam para cometer roubos é possível. "Esses grupos não são sigilosos, não são terroristas. Essas pessoas todas têm redes de comunicação". Na última quarta-feira, o governador Luiz Fernando Pezão disse que o trabalho de inteligência é feito com o uso da tecnologia, mas que a polícia vai agir para impedir que adolescentes que se envolvem em tumultos em ônibus cheguem à praia. — Os que não queremos deixar chegar à praia são aqueles que não pagam passagem, andam em cima do ônibus ou com a metade do corpo para fora, jogando latas (em quem passa) e roubando passageiros — disse. Para o cientista político João Trajano, as blitze punem de antemão jovens negros e pobres dos subúrbios. — Serão eles que têm promovido arrastão e baderna? São necessariamente os garotos que vem nos coletivos, que você não consegue sequer dizer em que coletivos eles vêm? —questiona. Favela e asfalto Conhecida por fazer protestos pedindo paz na Praia de Copacabana, bairro palco de assaltos e ação de justiceiros, a organização não governamental Rio de Paz também considera preocupante o tratamento que tem sido dado à questão. "A resposta que parte da classe média está querendo dar ao problema pode ampliar o fosso entre a favela e o asfalto", diz o presidente da ONG, Antonio Carlos Costa, se referindo a bairros pobres e ricos da cidade. Costa questiona o excessivo destaque, dado pela imprensa, aos crimes nas praias e lembra que o assassinato, nesta semana, do menino Herinaldo Vinícius da Santana, 11 anos, na Favela Parque Alegria, no Caju, não recebeu o mesmo tratamento. Apesar dos protestos de moradores em vias expressas da zona norte, não houve, na avaliação dele, comoção por parte dos cariocas. — Vimos duas cenas emblemáticas esta semana, a do menino roubando celular no Arpoador e a imagem do Herinaldo, morto no Caju. O que chama a nossa atenção e aponta para uma patologia social é que o que houve no Arpoador comove mais a sociedade do que o que aconteceu no Caju. O motivo é simples: vivemos em uma cultura da banalização da vida do pobre. Como essas pessoas [moradores das favelas] se sentem vendo uma megamobilização para garantir o lazer na praia em um contexto em que todos os dias pessoas morrem nas favelas? — questiona o presidente da Rio de Paz. Para a professora de jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) Sylvia Moretzsohn, a imprensa tem que desconstruir discursos preconceituosos, principalmente quando eles vêm das autoridades. Sylvia chama a atenção, no entanto, para o modo como as redes sociais podem ser usadas para estimular discriminação e acirrar o clima de medo. Ela cita como exemplo montagens de matérias jornalísticas com o resgate de imagens antigas como se fossem de crimes recentes, forçando uma sensação de insegurança ainda maior. — As coisas são compartilhadas sem contexto, e as pessoas vão na onda do que são levadas a crer. Há esse transbordamento nas redes sociais, incontrolável do ponto de vista jornalístico — diz a pesquisadora. Para ela, as pessoas esperam soluções simples e rápidas para problemas históricos e complexos e rejeitam qualquer tentativa de demonstrar essa complexidade. — Quero que minha vida seja tranquila, mas não quero saber como posso atingir o meu objetivo. E não quero que venham com histórias para complicar a minha capacidade de entender. É o tal do simples assim, mas nada é simples assim — afirma. Mais segurança Enquanto os assaltos ocorriam no último fim de semana, o balconista Ecione Lopes, de 36 anos, trabalhava em uma das farmácias de Copacabana, bairro conhecido pela grande quantidade de idosos. O estabelecimento acabou fechando mais cedo seguindo a iniciativa de várias lojas do local que temiam depredações e roubos. Ele diz que o número de clientes caiu desde o último fim de semana. "Quando acontece isso, os idosos e aposentados deixam de sair de casa. As pessoas estão com medo", conta. Morador de Ipanema, Lopes defende as revistas nos ônibus porque "não deve nada a ninguém" e acredita que essa seja uma forma de a população se defender. "Eu acho que o Poder Público está sem força para impor o respeito para o cidadão de bem. Estamos largados”. Presidente do movimento Viva Copacabana, que reúne moradores e empresários do bairro, Toni Teixeira diz ser contrário à ação de grupos que agridem suspeitos de crimes. "Não podemos admitir o crime, mas não posso admitir também que a pessoa parta para o desespero. Senão, virou a barbárie: um rouba, o outro rouba e o outro mete pancada. Aí, acabou o Estado". Teixeira defende que o policiamento nas praias da zona sul seja reforçado pelas Forças Armadas. "As pessoas que vem têm mais facilidade de praticar o furto e não serem detidas por causa do excesso de gente. Tem que aumentar o efetivo, e, se precisar, pedir apoio das Forças Armadas." Na última quinta-feira, a Polícia Militar anunciou um esquema de segurança especial para este fim de semana que conta com cerca de 700 agentes, incluindo policiais do Batalhão de Choque. Chamado de Operação Verão, o reforço, que é repetido todo ano nos meses em que as praias do Rio são mais frequentadas, foi antecipado. Em uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, o coronel da Polícia Militar Ibis Pereira defendeu que o reforço no policiamento não vai resolver o problema dos arrastões, que se repete na cidade desde 1991. Segundo ele, o fato de ser preciso montar "uma operação de guerra" para que as pessoas desfrutem da praia deveria provocar uma reflexão profunda sobre a identidade da cidade. — A polícia ostensiva sozinha não faz prevenção de arrastão. O que é o arrastão? Por que o arrastão? O que esses garotos estão querendo? Será que eles querem apenas roubar o celular? Eles estão querendo visibilidade, estão querendo ser vistos, porque são invisíveis. Estamos falando deles por causa do arrastão. Se não, não estaríamos falando deles —afirmou. Em entrevista à TV Brasil, a coordenadora executiva do Projeto Uerê, Yvonne Bezerra, que dá orientação pedagógica a jovens do Complexo da Maré, lembrou que a maioria dos jovens da periferia não comete crimes nem arrastões. — Eles ficam tentando sobreviver em uma sociedade extremamente injusta contra eles. Mas tem uma parte desses jovens que se revolta — disse ela, que aponta que falhas do Estado e das famílias levam a essa situação. Já para o prefeito do Rio, Eduardo Paes, arrastões não são um problema social, mas de polícia. — Não vamos tratar marginais e delinquentes como problema social. Precisamos de forças de segurança impondo a ordem — disse Paes em uma entrevista coletiva convocada para falar sobre os assaltos. Retrospectiva No fim de semana de 22 e 23 de agosto, a Polícia Militar retirou 150 adolescentes de ônibus que seguiam em direção à zona sul e os encaminhou ao Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Ciaca), ação que foi defendida pelo governador como forma de impedir os arrastões. Segundo Pezão, o monitoramento de jovens desde o embarque nos ônibus é feito desde o ano passado. A iniciativa sofreu críticas, e a Defensoria Pública do Rio de Janeiro pediu que essas abordagens fossem suspensas, por representarem cerceamento do direito de ir e vir dos adolescentes ao detê-los sem flagrantes nem ordens judiciais. A Justiça acatou parte do pedido e as ações não foram repetidas nas semanas seguintes. Depois dos assaltos nas praias da zona sul registrados no último fim de semana, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, anunciou a volta das blitze, agora com a participação de outros órgãos e de assistentes sociais. Para ele, as ações são necessárias como forma de prevenção. Em nota, o Conselho Regional de Serviço Social afirmou que o código de ética profissional da entidade proíbe que assistentes sociais participem de abordagens que tenham objetivo de cercear direitos. “Se a zona sul tem medo, o que dizer da zona norte onde assassinatos e execuções por parte de policiais fazem parte do cotidiano, como reconhecido unanimemente por entidades e organizações nacionais e internacionais de defesa de direitos humanos com ampla credibilidade?”, diz o comunicado.
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