No depoimento prestado durante esta madrugada à polícia brasileira, o jogador argentino Desábato, do Quilmes, mostrou arrependimento pela atitude racista contra o são-paulino Grafite, segundo o delegado seccional Dejar Gomes Neto.
O zagueiro segue preso no 34º Distrito Policial, no bairro do Morumbi. Indiciado por injúria qualificada, ele está sozinho em uma das celas da delegacia por motivos de segurança.
- O argentino se mostrou arrependido. Mas o Grafite se sentiu ofendido, e isso é suficiente para que seja considerado racismo. Ele continua preso - disse Gomes Neto em entrevista à TV Globo.
Desábato, que teve amostras de suas impressões digitais recolhidas da delegacia, vai ficar preso até que um juiz decida que sentença ele vai receber.
No Brasil, o crime cometido por Desábato, que prevê até três anos de prisão, só pode ter valor de fiança determinado pela Justiça, o que pode demorar até alguns dias.
- Ele vai ficar preso, e o flagrante foi encaminhado ao judiciário, onde o juiz decidirá seu destino - explicou o delegado seccional na entrevista à TV Globo.
No primeiro tempo do jogo entre São Paulo e Quilmes, pela Copa Libertadores da América, o jogador argentino xingou Grafite de forma racista. O brasileiro reagiu, empurrou o rosto do rival e foi expulso de campo. As imagens da TV flagraram a cena.
Logo após o término da partida, o delegado Oswaldo Nico Gonçalves, superintendente do Garra, conduziu o jogador para o 34º Distrito Policial para registrar queixa contra o jogador.
De acordo com um promotor do Ministério Público, Desábato foi indiciado pelo crime de injúria por preconceito, que está no artigo 140, parágrafo terceiro do Código Penal. A pena para este crime é de reclusão de um a três anos e multa. Esta pena poderá ser aumentada em um terço, tendo em vista que a agressão ocorreu na presença de várias pessoas, segundo o artigo 141, parágrafo terceiro do Código Penal.
- Em tese, pode-se prender em flagrante. A reclusão é considerada muito mais grave que a detenção comum - afirma o promotor.
Entretanto, de acordo com ele, é muito difícil que se entenda que é um caso da manutenção da prisão em flagrante.
- Cabe a prisão, mas a manutenção é improvável, tendo em vista que neste caso existe a possibilidade de suspensão condicional do processo, ou, caso o argentino venha a ser condenado, pode cumprir uma pena alternativa - diz.
- A manutenção da prisão em flagrante parece um pouco desproporcional - entende o promotor.
Na opinião do presidente do São Paulo, Marcelo Portugal Gouvêa, a prisão do zagueiro Desábato, do Quilmes, mostra que o Brasil é um país sério e não aceita nenhum tipo de preconceito. O argentino passou a noite na cadeia por ter proferido ofensas racistas contra o atacante Grafite, durante o jogo de quarta-feira entre as duas equipes. O Tricolor venceu por 3 x 1.
- Isso serve para o mundo inteiro. Aqui no Brasil a gente recebe todo mundo muito bem, mas não aceita esse tipo de manifestação. Não queiram colocar o Brasil em posição inferior porque não aceitamos - afirmou o cartola, em entrevista àRádio Jovem Pan.
Gouvêa disse que o presidente do Quilmes tentou contornar a situação, mas ouviu um 'não' como resposta. Os argentinos já tinham agido dessa forma no primeiro jogo, mas se desculparam através de uma carta e a situação ficou resolvida. Dessa vez, porém, o cartola são-paulino não aceitou as desculpas.-WAP
- O presidente me pediu o relaxamento, mas eu disse que não daria pra aceitar. Isso já aconteceu lá e nós aceitamos as desculpas. Agora somos submetidos a isso novamente - esbravejou Gouvêa.
- Não me arrependo de ter dado o perdão da primeira vez, mas eles abusaram da nossa boa vontade e terão que aceitar as determinações legais. A decisão foi essa e ponto final - decretou.