Para as eleições presidenciais de abril, na Argentina, três fórmulas de origem peronista e três de origem radical dão conta da crise do projeto bi-partidarista, no qual o país foi reorganizado ao sair da ditadura. Ao mesmo tempo, a fragmentação do campo opositor entre várias fórmulas de esquerda e os chamados para anulação do voto são indicadores da ausência de alternativas que, no plano eleitoral, expressam o poderoso movimento popular que emergiu das jornadas de 19 e 20 de dezembro de 2001. Muita gente se pergunta o que restou daquele movimento de rebeldia que caiu por terra com o governo da Aliança presidido por Fernando De La Rúa, instalando, no imaginário coletivo, a possibilidade do "Que saiam todos". Os sinais não são precisos. No entanto, existem antecedentes históricos que valem a pena recordar. Em 1983, a queda da ditadura, a "esperança" cidadã estava centrada na ascensão do radicalismo encarnado na figura de Raúl Alfonsín. Alfonsín, logo defraudou quem o via como o mártir da democracia, aprovando leis de Ponto Final e Obediência Devida, as quais abriram o caminho para a impunidade dos genocidas. Tampouco cumpriu as promessas realizadas de "que com a democracia se come, se cura e se educa". Pelo contrário, durante seu governo, continuou aplicando as políticas neoliberais de privatizações, pagamento de dívidas e a queda do salário e do emprego. No início de 1989, o governo radical estava envolvido em uma profunda crise política e uma forte desestabilização social. Nesse contexto, se levaram a cabo as eleições presidenciais que impuseram a fórmula Carlos Menem - Eduardo Duhalde, com 49% dos votos contra 30% da fórmula radical. Entre maio e junho, em meio à hiper-inflação, aconteceram saques em supermercados da Grande Buenos Aires e, principalmente, na cidade de Rosário, deixando um saldo de 14 mortos devido à repressão policial. Alfonsín adiantou a entrega do poder para o 8 de julho de 1989. O menemismo inaugurava o que resultou em uma década de governo ininterrupto e, assim, cresceu, gerando uma nova "esperança", no que se denominou "revolução produtiva" e "salariaço". Em 1993, os grandes partidos políticos nacionais, através de Alfonsín e Menem, entraram em acordo sobre iniciar uma reforma na Constituição. O Pacto de Olivos foi o acordo que destravou a reforma constitucional no parlamento, favorecendo a reeleição de Menem e a constituição de uma institucionalização no plano político, jurídico e legal, que possibilitava o domínio bi-partidarista e a governabilidade para a aplicação das políticas neoliberais. A defraudação do menemismo às promessas de justiça social e uma década de impunidade e corrupção geraram um forte rechaço na sociedade. Isto foi capitalizado pela Aliança realizada entre o FREPASO e a União Cívica Radical. Depois de 10 anos de domínio menemista, a "esperança" ficou concentrada na Aliança anti-menemista. No entanto, radicais, peronistas, depois da aliança, sustentaram o essencial, o mesmo rumo ditado pelas políticas de fundo monetaristas conhecidas como o neoliberalismo. Dois anos depois, vinham à tona todas as "esperanças", nas jornadas de 19 e 20 de dezembro de 2001. Nas próximas eleições presidenciais, a fragmentação do bloco eleitoral peronista e do bloco radical dá conta da crise da institucionalidade emergente do Pacto de Olivos, deslegitimado em dezembro de 2001. As eleições de abril serão indicadoras principalmente de uma ausência: a falta de uma proposta alternativa do movimento popular que possa projetar a rebelião de 19 e 20, em sua energia questionadora. No entanto, o sistema dominante tampouco pode regenerar uma "esperança" que dê a solidez à hegemonia política resultante desta conjuntura. Em tempos em que se pretende apaziguar e adormecer a rebelião, recriando expectativas, nas variantes eleitorais do sistema, a falta de esperanças, nessas eleições, não é necessariamente um indicador de desmobilização, senão o contrário: um nível de consciência, que atua no te
Argentina vive sem esperança nas próximas eleições
Quinta, 03 de Abril de 2003 às 08:24, por: CdB