Rio de Janeiro, 24 de Maio de 2026

Argentina vive momento de tensão, entre piquetes e eleições

A anulação de sentença que libertava piqueteiros em Buenos Aires levou cerca de 10 mil ativistas políticos às ruas da capital e, neste sábado, um dos líderes do Movimento de Trabalhadores Desocupados afirmou que a questão vai se transformar em "assunto de Estado". (Leia Mais)

Sábado, 19 de Abril de 2003 às 08:20, por: CdB

Quarta-feira, 16 de abril, 11 horas da manhã. O MTD (Movimento de Trabalhadores Desocupados) Aníbal Verón, o MTR (Movimento Teresa Rodríguez), a CCC (Corrente Classista e Combativa) e vários outros movimentos piqueteiros atravessaram a Ponte Pueyrredon e, depois das 14h30min, puseram-se em marcha à Casa da Província de Salta, para se unirem, na Praça de Maio, ao Bloco Piqueteiro Nacional (integrado pelo Pólo Operário, pelo Movimento Territorial Libertação, pelo Movimento Teresa Vive, entre outros), à Coordenadora de Trabalhadores Desocupados, Aníbal Verón, e às Mães da Praça de Maio, reclamando a libertação dos 4 piqueteiros de Salta, detidos no dia 9 de abril. As mobilizações - parte de um plano de luta nacional - confluíram para o centro portenho, reunindo mais de 10 mil manifestantes. Os juízes saltenhos, que respondem pelas diretivas do governador Romero - candidato a vice-presidente nas próximas eleições junto a Menem - anularam a libertação dos piqueteiros detidos: "Pepino" Fernández, "Piquete" Ruiz, Juan Nievas e Claudio Fernández. A advogada Myriam Bregman do CEPRODH (Centro de Profissionais pelos Direitos Humanos) explicou que "a resolução judicial é uma aberração, porque os mantém presos por terem participado de cortes de estradas anteriores, e argumenta que o faz para garantir a tranqüilidade do processo eleitoral". Um pronunciamento do MTD de Solano diz: - Nós sabemos que isto está sendo feito pelo menemismo para gerar conflito social antes das eleições. Em sua campanha, Menem tem manifestado que vai terminar com os delinqüentes e subversivos piqueteiros, levando o exército às ruas. O governador de Salta, Juan Carlos Romero, este personagem sinistro que é o candidato a vice-presidente de Carlos Menem, é o responsável pelas repressões que há dois anos assassinaram cinco piqueteiros em Gral Mosconi. Um dos dirigentes do MTD de Florença Varela, Juan Cruz Dafunccio, que integrou a delegação, concedeu entrevista, neste sábado, ao secretário de Direitos Humanos, Oscar Fappiano, e a um assessor do ministro da Justiça, Juan José Alvarez, afirmando ao término destas entrevistas: "Advertimos que isto vai se transformar em uma questão de Estado, como acontece cada vez que se interdita a estrada em Mosconi. Colocar em prática a promessa eleitoral de Menem de 'pacificar' o país, acabando com a luta popular, mediante a repressão, longe de garantir a paz social, aprofundará a política de fome e repressão e encontrará, como inevitável resposta, uma luta popular cada vez mais contundente e massiva". O dirigente do MTD de Florencio Varela antecipou que, se não obtiverem a liberdade dos piqueteiros, farão atos contra a campanha eleitoral de Menem, tais como bloquear as estradas de acesso à Capital no dia do encerramento da campanha do ex-presidente. Por sua parte, Carlos Menem encarregou para a campanha eleitoral uma propaganda que diz: "Com Menem vai haver ordem. Não haverá mais interdição de estradas e vias". Tanto Menem, como o candidato da direita radical, Ricardo López Murphy, estão tentando capitalizar o descontentamento que provocam, nos setores médios, as permanentes interdições do trânsito, para buscarem o voto destas faixas da sociedade, prometendo mão dura com os piqueteiros. (Precisamente os mesmos candidatos que pediram que a Argentina condenasse Cuba pelas supostas violações dos direitos humanos, são os que se encarregam de prometer maiores repressões no país contra os quais se reclamam pelo direito ao trabalho). A luta aberta pelo voto está nas ruas. À medida que se aproxima a data das eleições, intensificam-se os enfrentamentos entre os que querem "restabelecer a ordem neoliberal, a ferro e fogo", e os que lutam por justiça social, por dignidade, por trabalho, e - participem ou não da contenda eleitoral - estão convencidos que da mesma não surgirá nenhuma solução para a crescente injustiça, exclusão e repressão, que é o que lhe toca no repartimento dos setores populares. *Claudia Korol

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