Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Argentina: o balanço que faltou

Por Paulo Nogueira Batista Jr. - O que se vê na Argentina de Kirchner é uma política governamental mais ousada, menos presa a fórmulas e rotinas convencionais, formando um contraste notável e, para muitos, inesperado com o Brasil de Lula. (Leia Mais)

Quarta, 14 de Janeiro de 2004 às 05:37, por: CdB

Como costuma ocorrer nessa época do ano, a imprensa esteve entulhada por balanços de todo o tipo. Um tédio. A falta de assunto andou de mãos dadas com a falta de imaginação.
De uma maneira geral, os comentaristas foram bastante condescendentes com o governo brasileiro, particularmente com a política econômica. Em alguns setores notou-se até um certo entusiasmo. No setor financeiro, por exemplo. Daí vieram os balanços (num duplo sentido) mais vibrantes. Aos olhos de alguns banqueiros e executivos bancários, o presidente Lula passou em pouco tempo de "analfabeto" a "estadista".

Sabemos que a economia estagnou, os salários diminuíram e o desemprego aumentou. Não importa. O essencial foi ter recuperado "a confiança do mercado".

Poderia ter sido pior, repetiu-se com freqüência. Sem dúvida. Por outro lado, como diria o Conselheiro Acácio, também poderia ter sido melhor. É o que sugere, por exemplo, a experiência do nosso mais importante vizinho e aliado.

Refiro-me à Argentina. Eis aí um balanço que ficou faltando e pode ser instrutivo para os brasileiros. Afinal, o que se vê na Argentina de Kirchner é uma política governamental mais ousada, menos presa a fórmulas e rotinas convencionais, formando um contraste notável e, para muitos, inesperado com o Brasil de Lula. Não é por acaso que uma figura politicamente asquerosa como o escritor peruano Mario Vargas Llosa, por exemplo, elogia Lula como "pragmático" e despreza Kirchner como "populista".

Vejamos, leitor, alguns dados da economia argentina. Sem exageros, prometo. Sei, por longa experiência, que estatística arrasa qualquer conversa.

A mais importante diferença está no desempenho do PIB. Em 2003, depois de anos seguidos de profunda recessão, a Argentina cresceu nada menos que 7,3%, o melhor resultado da América Latina. O investimento foi o componente mais dinâmico da demanda interna. O desemprego urbano, embora ainda muito grave, cedeu de forma importante, caindo de uma média de 20% em 2002 para menos de 16% no ano passado.

Essa forte recuperação não teria sido possível se a economia da Argentina tivesse sido submetida a uma política macroeconômica draconiana como a que aplicaram no Brasil em 2003. Ao longo do ano, as taxas de juro argentinas foram consideravelmente menores do que as brasileiras. No final de 2003, a taxa de juro nominal de curto prazo estava em 4,9% na Argentina contra 16,4% no Brasil. Considerando a inflação acumulada no ano (preços ao consumidor), a taxa de juro argentina correspondia a apenas 1,3% em termos reais.

A política fiscal também foi mais flexível do que no Brasil. Resistindo a pressões do FMI, o governo argentino fixou e alcançou uma meta mais modesta de superávit primário, de 2,5% do PIB. Nem por isso os mercados financeiros se assustaram. A bolsa de valores, por exemplo, registrou alta acentuada no ano, superior a 100% em moeda local. Em determinado momento, a excessiva oferta de fundos externos levou o governo argentino a restringir a entrada de capitais de curto prazo, adotando uma medida que é anátema para a ortodoxia supersticiosa dominante no Ministério da Fazenda e no Banco Central do Brasil.

O curioso é que essa flexibilidade monetária e fiscal não impediu excelentes resultados no combate à inflação. A existência de grande capacidade ociosa na economia permitiu conciliar rápido crescimento da produção com queda acentuada da inflação. A taxa de inflação dos preços ao consumidor recuou de 41% em 2002 para menos de 4% em 2003 - menos da metade da que se registrou no Brasil.

O crescimento da economia também não produziu desequilíbrios externos. As importações aumentaram, mas o saldo comercial da Argentina alcançou US$ 15,5 bilhões. O superávit em conta corrente (computados juros devidos e não pagos) chegou a US$ 9 bilhões, o equivalente a quase 8% do PIB. No nosso caso, o superávit em conta corrente representou menos de 1% do PIB.

Em suma, por enquanto Kirchner

Tags:
Edições digital e impressa