As doenças relacionadas à pobreza, como o mal de Chagas, a raiva e a febre amarela, estão recrudescendo na Argentina, ainda refletindo a redução das campanhas de prevenção durante a crise econômica de sete anos atrás.
O desmatamento e o aquecimento também contribuem com a volta de algumas doenças, segundo especialistas.
A Argentina reduziu drasticamente seus níveis de pobreza desde a crise de 2001-2002, e a economia vive o sexto ano consecutivo de crescimento. Mas profissionais da saúde dizem não ter recursos para a prevenção na região norte do país, a mais pobre.
- Recentemente estamos vendo a emergência ou reemergência de algumas doenças que pensávamos estar pelo menos sob controle - disse Sonia Tarragona, da empresa de pesquisas científicas Mundo Sano.
O mal de Chagas é endêmico em zonas rurais argentinas, graças à presença do mosquito barbeiro, que se aloja em moradias precárias.
- Para a boa prevenção, é preciso erradicar os insetos, mas há zonas em que temos apenas cinco pessoas para o controle de pestes e muitas casas esparsas - disse Hugo Mujica, cardiologista que atende pacientes com doença de Chagas na província de Santiago del Estero, uma das mais afetadas. Na sua forma crônica, a doença lesa o coração e outros órgãos.
Os programas de prevenção foram desativados durante a crise de 2001, o que ajudou no ressurgimento da vinchuca, o nome local do barbeiro.
- Com a deterioração das condições de vida..., o barbeiro se desloca e volta a áreas em que havia sido erradicado - disse o diretor de Epidemiologia do Ministério da Saúde, Juan Bossio.
O governo neste ano aumentou o orçamento para o combate ao mal de Chagas, e em abril lançou um programa para tentar erradicá-lo dentro de três anos.
Raiva, febre amarela
A raiva, transmitida por mordidas de animais contaminados, como cães e morcegos, estava erradicada na Argentina desde 1994, mas em julho um menino de oito anos morreu vítima da doença.
- A Argentina está mudando totalmente a sua abordagem em relação à raiva porque a situação mudou. A aparição de uma doença que não estava aí soou um alarme - disse Bossio.
Outras doenças transmitidas por mosquitos, que vêm recuperando força em todo o mundo, possivelmente devido a alterações climáticas e às proibições de pesticidas, também estão voltando à Argentina.
Após 42 anos sem febre amarela, oito casos foram notificados neste ano, com uma morte. Os casos de malária crescem desde 2002.
Também a tuberculose, com uma taxa de declínio cada vez mais tímida, preocupa o governo, que decidiu dobrar o orçamento para sua prevenção em 2009.
Muitas dessas doenças se proliferam mais nas áreas mais pobres do norte argentino. As estatísticas oficiais mostram que a pobreza caiu para 18 por cento no primeiro semestre, depois de subir para 55% em 2002, quando a economia se contraiu dramaticamente. Mas alguns economistas independentes acham que o governo está "maquiando" os índices de inflação e que isso superdimensiona a redução da pobreza.
A soja e outros cultivos, junto com assentamentos humanos, estão avançando sobre áreas antes mantidas como florestas, o que deixa as pessoas mais expostas a insetos que vivam onde as árvores foram cortadas.
- Quando as pessoas cortam a floresta, se expõem a doenças que nem sabiam que existiam - disse Tarragona.
Em 2006, a Argentina teve o seu primeiro registro de leishmaniose visceral, a forma mais séria dessa doença parasitária, o que segundo especialistas é o resultado direto da ocupação humana em áreas florestais.
Nos últimos dois anos, quatro casos de leishmaniose visceral foram notificados em Santiago del Estero, e 21 na província de Misiones. Quatro pessoas morreram.