Rio de Janeiro, 29 de Setembro de 2026

Aquilo del nisso

Sexta, 15 de Julho de 2011 às 06:06, por: CdB

Não se chora o leite derramado, mas é fundamental descobrirmos por que derramou e, quem sabe até, quem o derramou

15/07/2011

 

Alipio Freire

 

O governo da presidenta Dilma Rousseff, em seis meses, tem sido assediado por todos os seus flancos, de forma metódica e eficiente, o que já deixou como saldo a queda de três ministros. Dizer que “a culpa é do inimigo”, para concluir que “o inimigo é inimigo”, é hilário: uma tautologia que nada acrescenta.

Pior ainda, a desculpa de que “a presidenta Dilma Rousseff não é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Não é mais possível esconder os erros nas concepções (especialmente da estratégia) levadas pelo PT desde 1983, quando se fez hegemônica uma política deliberada de substituição dos métodos e instrumentos de democracia interna – desmonte dos núcleos de base, intervenções em diretórios e o abandono paulatino pelo PT da política de organização autônoma e independente dos movimentos e organizações dos trabalhadores e do povo (povo = explorados e oprimidos). A CUT, que surge naquele mesmo instante com o compromisso de lutar contra a carta sindical, o imposto sindical e outras mazelas da velha Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), transforma logo em letra morta esses objetivos, do mesmo modo que abandona a política de uma organização sindical a partir do interior das empresas e não apenas em torno das sedes dos sindicatos e/ou de seus dirigentes. Mais grave: os sindicatos e outras organizações e movimentos dos trabalhadores e do povo são transformados em correia de transmissão da nova hegemonia e a nova estratégia do partido define como terreno principal (e até exclusivo) de luta as instâncias institucionais (terreno onde o inimigo é mais forte), entendendo que a realização de mudanças estruturais no país passa pela conquista da Presidência da República, num discurso rebaixado onde se confunde estar no governo com estar no poder.

Some-se ainda (entre outros erros) o entendimento (que daí deriva) de que são sufi cientes para a governabilidade as alianças com os partidos com representação nos demais poderes da República.

Movimentos e organizações dos trabalhadores e do povo autônomas e independentes são o único antídoto contra as investidas dos inimigos e contra o populismo – pois incorporam a classe trabalhadora e o povo enquanto sujeitos políticos. A derrota de 1964 está aí para nossa permanente reflexão.

Não se chora o leite derramado, mas é fundamental descobrirmos por que derramou e, quem sabe até, quem o derramou.

 

Alípio Freire é jornalista e escritor.

Texto publicado originalmente na edição 437 do Brasil de Fato.

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