Por Ou se complementam? 18/05/2011 às 16:06
O Jornal Nacional tá fazendo, durante essa semana, uma série de reportagens sobre a situação da Educação no Brasil. Ontem um de seus experts se mostrou bastante pragmático: Se deve ensinar aos alunos mecânica de automóvel em vez de mecânica celeste e fazê-los entender uma bula de remédio em vez de falar-lhes de Análise Sintática. A aprendizagem da mecãnica dos astros e a aprendizagem da mecãnica de automóveis são mutuamente excludentes ou são complementares?
Há um brocardo latino que diz: Non scholae, sed vitae discimus. Não aprendemos para a escola, mas para a vida. Claro. Mas análise sintática e mecânica celeste não é uma aprendizagem para a escola, mas para a vida. A apredizagem de uma complementa e facilita a aprendizagem da outra. Esse pragmatismo da rede globo é idiota.
Com tantos recursos pedagógicos e didáticos, inculcar nos alunos que eles devem aprender o básico do básico, apenas para fazerem girar as engrenagens do capital, tratando-os não como pessoas mas como números, é se colocar na vanguarda do atraso.
É claro que os currículos escolares e os conteúdos das cisciplinas devem ter estreita relação com o cotidiano, mas defender a pedagogia do opressor e mandar a erudição às favas, sei não, hein?
Em um discurso proferido no aniversário do Jornal do Povo, em Londres, em 1856, Marx afirmou:
"Há um grande fato, característico deste nosso século XIX, um fato que nenhum partido ousa negar. Por um lado, despontaram para a vida forças industriais e científicas, de que nenhuma época da história humana anterior alguma vez tenha suspeitado. Por outro lado, existem sintomas de decadência que ultrapassam de longe os horrores registrados nos últimos tempos do Império Romano.
Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário. Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido. Alguns partidos podem lamentar-se disso; outros podem desejar ver-se livres das artes modernas, a fim de se verem livres dos conflitos modernos. Ou podem imaginar que tão assinalável progresso na indústria requer que seja completado por uma igualmente assinalável regressão na política. Pela nossa parte, não nos engana a forma do espírito astucioso que continua a marcar todas estas contradições. Sabemos que, para trabalharem bem, as novas forças da sociedade apenas precisam de ser dominadas por novos homens - e os operários são esses [novos homens]. Eles são tanto uma invenção dos tempos modernos como a própria maquinaria. Nos sinais que desorientam a classe média, a aristocracia e os pobres profetas da regressão, reconhecemos o nosso bom amigo, Robin Goodfellow(1*), a velha toupeira que sabe trabalhar a terra tão rapidamente, esse digno sapador - a Revolução."
O trecho abaixo transcrito, retirado da edição de ontem do Jornal Nacional, mostra que ultrapassamos os horrores registrados nos últimos temps do Império Romano. Confira:
"O que acontece na cabeça do menino? Se a escola é chata, se a escola não incendeia a imaginação dele com as idéias que estão sendo ensinadas, ele tem uma energia enorme, ele vai usar essa energia para aprontar. Então uma medida que é genérica e bom para tudo é você tornar a escola interessante, sedutora, tornar a mensagem da escola sedutora, tornando os assuntos da aula próximos do mundo que o aluno vive. Em vez mecânica dos astros, fala de mecânica de automóvel, os princípios são os mesmos. Em vez de falar de análise sintática de Camões, vamos ver se você entende a bula do remédio. Então são muitos truques, muitas possibilidades de fazer a escola interessante."
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/05/sudeste-tem-maior-media-nacional-de-aluno-por-escola.html