Alessandro Yara Rossi,
Especial para o site da FPF
O técnico Toninho Ortega, de 50 anos, que comanda o Cotia no Campeonato Paulista da Segunda Divisão, teve uma curta carreira como atacante a partir de 1976: foi comandado pelo treinador Adaílton Ladeira nas categorias de base do Guarani, depois atuou por alguns jogos no time profissional. Passou pelo extinto Saad Esporte Clube (atual Associação Desportiva São Caetano), União Bandeirante (PR) e resolveu parar no Nacional, aos 24 anos, em função do pouco retorno financeiro.
Palavra de Técnico
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Fez estágio no Flamengo em 1995 e 1996 para se tornar técnico e somente em 1997, conseguiu sua primeira oportunidade: trabalhou no CSA (RO) por dois anos. Em 1999 assumiu o projeto inusitado no futebol chinês, com intuito de alavancar a prática no país, que estava muito aquém do Japão e permaneceu por oito meses.
Regressou ao Brasil e no ano de 2002 resolveu apostar em um planejamento arrojado: foi ser assistente técnico no Daegu da Coréia do Sul e pegou o pleno desenvolvimento deste esporte no país, que sediava junto com o Japão a Copa do Mundo. Só regressou ao Brasil em 2006 e assumiu a equipe da Saltense. Na temporada passada aceitou o projeto de colocar a cidade de Cotia no cenário paulista e se tornou o primeiro comandante do time profissional.
FPF: Qual foi o fato mais marcante na sua carreira?
Ortega: Com certeza foi na Coréia do Sul, porque aqueles estádios modernos estavam prontos para a Copa do Mundo, vivenciei uma cultura totalmente diferente, o futebol começou a se destacar nesta época e obtive uma grande base. Procurei passar todo o meu conhecimento que ganhei no Brasil, lógico que eles demoraram, mas assimilaram um estilo de jogo totalmente diferente.
FPF: Qual foi a história mais inusitada que você já passou na Coréia do Sul?
Ortega: Em 2002 eu ainda tinha cabelo e quando andava na cidade de Daegu, as pessoas acharam que eu era o Zico, todos estavam eufóricos, me abraçavam, pediram autógrafos e fiquei sem saber o que fazer. Só depois que o meu intérprete falou qual era a situação e depois que a verdade foi dita, os coreanos ficaram desapontados. Outra história engraçada aconteceu quando os dirigentes do Daegu me chamaram para comer em um restaurante típico e infelizmente pediram uma carne que tinha um cheiro péssimo, e com isso aproveitei que a mesa era furada e tive que fazer este desperdício e acreditavam que eu estava adorando.
FPF: Podemos fazer um paralelo entre o seu projeto na Coréia do Sul e o que o Zico fez no Japão?
Ortega: Nem podemos comparar, o Zico ficou muito tempo no Japão e mudou completamente a filosofia de jogo. Eu fiquei apenas quatro anos lá, tentei desenvolver a parte tática, física e técnica, mas nada chega perto do que o ‘Galinho’ realizou.
FPF: Como evoluíram os jogadores coreanos quando você esteve lá?
Ortega: O jogador trabalhava apenas com velocidade, este era o princípio para eles, não se importavam pela parte tática, todos atacavam e defendiam em demasia, não existia compreensão no campo. Em razão disso procurei mudar esta filosofia. Eles não entendiam o esquema 4-4-2, por exemplo. Depois buscamos atletas que tinham estas condições, para auxiliar neste sentido e os coreanos conseguiram compreender e melhoram consideravelmente em quatro anos.
FPF: Como foi se acostumar com um idioma totalmente diferente?
Ortega: Era estranho no início, já que o meu trabalho era auxiliar o treinador do Daegu. Com o tempo aprendi o básico: palavras formais, a posição em campo, as instruções no plano tático e consegui viver sem problemas, mesmos sem falar fluentemente o coreano.
FPF: Como é a população da Coréia do Sul? É um povo fechado?
Ortega: Não, é totalmente o oposto. Este tipo de comportamento existe na Coréia do Norte até os dias de hoje. Na Coréia do Sul, o povo é muito inteligente, sábio, lhe oferecem uma bagagem cultural, são receptivos e logo me acostumei.
FPF: Você acompanha o futebol coreano ainda?
Ortega: Eu acompanho superficialmente, até por conta do fuso horário, assim não consigo assistir pela internet. Quem me mantém informado e inteirado do que acontece é o Neneca, preparador de goleiros que está lá no Daegu.
FPF: Em qual técnico você se espelha?
Ortega: O Diede Lameiro que começou a montar aquele timaço do Guarani em 1976 e deixou pronto para o Carlos Alberto Silva ser campeão brasileiro em 1978. Tem o Bora Milutinovic, que pegava seleções sem expressões no futebol e conseguia levá-las para uma Copa do Mundo. Ele era muito estrategista, aprimorou o esquema 3-5-2, onde encontrava algum jogador habilidoso e o colocava nos lados do campo, nisso apareceram os chamados alas, que apoiavam mais que defendiam. Ele tinha uma visão diferenciada, onde os zagueiros viravam volantes e exercer a posse de bola com objetividade.
FPF: Qual o estilo tático de suas equipes?
Ortega: Eu procuro sempre o ataque, nunca jogo para empatar. Na minha visão, se o meu time terminar uma partida em 0 a 0 saio muito frustrado, ninguém vai ao estádio e assistir um espetáculo sem emoção e objetivo. Eu gosto de ver a minha equipe apresentar um futebol bonito, ofensivo, mas inteligente. Por isso que o Cotia é um dos melhores ataques da Segunda Divisão.