O cineasta dinamarquês Lars von Trier vai cortar de seu filme sobre a escravidão no sul dos Estados Unidos cenas de um burro sendo desmembrado, depois dos protestos de defensores dos direitos dos animais que o acusaram de matar o animal apenas com fins de entretenimento.
O estilo experimental de Von Trier, 48 anos, e sua simpatia por temas perturbadores o transformaram num herói para muitos cinéfilos e uma ameaça para outros. Ele é famoso por manter o segredo sobre suas produções.
Numa carta aberta aos "amantes dos animais" divulgada na quinta-feira, o premiado cineasta agradeceu os ativistas pelo grande número de cartas e disse que o burro foi morto do modo mais misericordioso possível.
"A carne do burro foi passada adiante para assumir seu lugar na cadeia alimentar, o lugar que ela ocupa nessa parte do mundo", disse ele, num comentário incomum.
"Tirei todas as cenas que mostram o burro morto do filme", disse o diretor na carta.
Von Trier negou que o burro tenha sido morto só em nome do entretenimento. Ele disse que o conteúdo político e social do filme, "Manderlay", é tão importante que seria uma pena que ele fosse rejeitado ou ignorado por causa do burro.
"Minha opinião pessoal é de que agi com escrúpulos, e não acho que vamos chegar a um acordo."
"Manderlay", o segundo filme da trilogia chamada "EUA -- Terra das Oportunidades", conta a história da escravidão no sul dos Estados Unidos, nos anos 1930. É estrelado por Bryce Dallas Howard, Willem Dafoe e Danny Glover. O lançamento está previsto para este ano.
O primeiro filme da trilogia foi "Dogville", de 2003, com Nicole Kidman.
Von Trier é um dos fundadores do movimento Dogma 95, que, entre outras coisas, determinava que os cineastas utilizassem apenas luz e sons naturais, sem estúdios, e somente filmassem com câmera na mão. Mas, em seus últimos filmes, ele se afastou do manifesto.
Seu filme "Dançando no Escuro" ganhou a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 2000.