O Brasil não irá renovar o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que expira no final do mês. Com a decisão, anunciada pelo Ministério da Fazenda nesta segunda-feira, o país deixa o amparo do FMI depois de mais de seis anos ininterruptos de acordo.
O primeiro deles foi fechado em novembro de 1998, em meio a uma forte crise de confiança desencadeada pela moratória da dívida da Rússia.
- Acho que o país se preparou para isso (deixar o Fundo), principalmente com a recomposição das reservas internacionais e a diminuição da dívida atrelada ao dólar - disse o estrategista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz.
A decisão já era esperada pelo mercado, que não reagiu imediatamente à notícia.
O ministro Antonio Palocci concederá uma entrevista ainda nesta tarde e fará um pronunciamento em rede de rádio e televisão à noite para explicar a decisão.
Desde o primeiro acordo, a economia brasileira passou por alterações profundas, como a desvalorização do real, a criação do sistema de metas de inflação e uma reversão na contas fiscais e externas.
Para o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, que coordenou o primeiro acordo, em 1998, "acordo com FMI é só quando se faz necessário".
- Se não houver isso, não há porque manter - disse a jornalistas, após participar de evento da Bovespa.
Palocci já vinham comentando que a situação do país hoje é melhor do que quando os últimos pacotes foram acertados.
Enquanto isso, o Brasil pleiteava junto ao Fundo a exclusão de alguns gastos em infra-estrutura da contabilidade do superávit primário - o que foi conseguido - e a criação de uma espécie de seguro do Fundo a que pudesse recorrer sem necessidade de manter um acordo formal --o que ainda não tem resposta.
O primeiro pacote acertado com o FMI foi de 41,5 bilhões de dólares em ajuda internacional, num momento em que o Brasil perdia centenas de milhões de dólares por dia em capital.
Os investidores tinham medo que o país, que mantinha a sua moeda atrelada ao dólar, fosse optar pela desvalorização e não tivesse condições de honrar a dívida externa. O acordo foi fechado em novembro, mas mesmo assim o país não conseguiu manter o regime cambial e desvalorizou o real em janeiro do ano seguinte.
O acordo foi totalmente reformulado nos meses seguintes, e o Brasil adotou o regime de metas de inflação para garantir a estabilidade dos preços. Outra novidade foi a adoção de uma meta de superávit primário - que excluiu os gastos com pagamento da dívida - no acordo com o FMI, no lugar de resultado nominal.
Desde então, o equilíbrio das contas públicas passou a ser o mantra do governo federal sob o amparo do FMI. Como consequência, o superávit passou de 0,01 por cento do PIB em 1998 para 4,60 por cento do PIB no ano passado.
As contas externas também apresentaram significativa melhora, com o Brasil transformando déficit de 33,4 bilhões de dólares em conta corrente em 1998 para superávit de 11,7 bilhões de dólares em 2004.
A balança comercial, que sofria com o real atrelado ao dólar, deu um salto, passando de déficit de 6,6 bilhões de dólares em 1998 para saldo recorde de 33,7 bilhões de dólares no ano passado.
Após mais de seis anos, Brasil deixa o amparo do FMI
Segunda, 28 de Março de 2005 às 12:35, por: CdB