Após incentivar agenda ética, Dilma tenta priorizar debate econômicoPresidenta Dilma Rousseff muda de postura e, nos últimos dias, tenta colocar a discussão de temas como crescimento econômico e erradicação da miséria no topo da agenda nacional. Incentivada pelo próprio governo a partir da crise no ministério dos Transportes, prioridade do debate ético afasta Dilma de aliados e oferece bandeira à oposição.
André Barrocal
BRASÍLIA – A presidenta Dilma Rousseff promoveu uma série de demissões no ministério dos Transportes a partir do mesmo dia que uma reportagem acusou haver um esquema de corrupção no órgão. O processo que ali começava ganharia o apelido de “faxina”, batismo que auxiliares diretos da presidenta alimentaram. De forma consciente ou não, a exploração da imagem da “faxina” contribuiria para que o tema do combate à corrupção dominasse a agenda brasileira.
Nos últimos dias, porém, Dilma vêm tentando mostrar que não quer se tornar dependente de uma “vassoura” que, se rende popularidade entre os eleitores, abala a relação do governo com partidos alidos e custa votos favoráveis no Congresso. E mais: sinaliza que deseja botar no topo da agenda nacional aquilo que acha que realmente importa: melhorar as condições de vida das pessoas.
A mais recente demonstração de que pretende inverter as prioridades, Dilma deu nesta quinta-feira (18/08), durante evento em São Paulo no qual firmava com governadores do Sudeste um pacto contra a miséria. A presidenta terminou o discurso assim: “É o Brasil inteiro fazendo, de fato – como usa a imprensa –, a verdadeira faxina que este país tem de fazer: a faxina contra a miséria.”
Na última terça-feira (16/08), Dilma já havia transmitido um recado igual sobre prioridades, depois de evento em Brasília em que anunciara a criação de quatro novas universidades federais. Questionada por jornalistas sobre combate à corrupção, respondeu: “Meu desafio não é isso, meu desafio nesse país é desenvolver e distribuir renda. Esse é meu grande desafio O resto a gente tem que fazer por ossos do ofício.”
A mudança de postura de Dilma coincide com o momento em que o PMDB virou a estrela do noticiário político-policial. Se era fácil “faxinar” o PR dos Transportes, o mesmo não se aplica a um dos dois maiores partidos governistas e ao qual pertence o vice-presidente, Michel Temer.
O PMDB tem o dobro do tamanho parlamentar do PR. Com este último agora auto-declarado “independente” e fora da base que dá apoio automático a Dilma, ela não pode arriscar-se a perder mais votos no Congresso, brigando com um dos pilares do governo, ao lado do PT. A batida em retirada do PR sugou muito da gordura que o governo tinha para mudar a Constituição, por exemplo.
Mesmo que o primeiro escalão de Dilma já tenha perdido um dos protagonistas do PMDB em casos de suposta corrupção, a presidenta também usou o pedido de demissão do ex-ministro Wagner Rossi para acentuar a nova postura. Que inclui não tentar obter divindendos político-eletorais a partir das cinzas de aliados tombados.
Em nota oficial nessa quarta-feira (17/08), logo após a carta de demissão recebida de Rossi, Dilma disse: “Lamento ainda que o ministro não tenha contado com o princípio da presunção de inocência diante de denúncias contra ele desferidas”.
Com este tipo de declaração, Dilma sugere aos aliados que não está inclinada a governar aliada à imprensa contra eles, grande temor dos partidos – e algo que poderia custar retaliação parlamentar ao governo no Congresso.
As três demonstrações recentes de uma “nova Dilma” foram dadas depois de uma longa conversa a sós que ela teve com antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, na semana passada. Mas não se pode atribuir a atitude recente dela sopros do mentor.
No dia 2 de agosto, após lançar um pacote de medidas de apoio à indústria, Dilma disse que não iria “abraçar nenhum caso de corrupção”, mas que também não iria se pautar “por medidas midiáticas no combate à corrupção”.
Naquele momento, nenhum ministro do PMDB tinha entrada na berlinda político-policial. Mas já pairava entre aliados da presidenta um clima de desconfiança de que ela estaria mais sensível à imprensa do que a eles.
A presidenta daria declaração quase idêntica no dia 8 de agosto, em entrevista que seria publicada posteriormente pela revista Carta Capital. “Não acho que o governo deva se pautar pela mídia” e “mas não acho que o governo deva abraçar processos de corrupção”.
O reordenamento de prioridade no debate público é algo que também tem vantagens para o governo, do ponto de vista do enfrentamento político com os adversários de PSDB, DEM e PPS.
Sem força no discurso econômico, a oposição vale-se da agenda moral, para encarar o governo e tentar separá-lo de partidos aliados. Se a bandeira econômica une os governistas, a agenda moral desune. Não por acaso, a oposição tem apostado na criação de uma grande CPI da Corrupção para investigar denúncias contra autoridades federais.