Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2026

Após dez anos, futuro do Comperj é incerto

O encarecimento das obras, a queda do preço do barril de petróleo e a concorrência do gás de xisto nos Estados Unidos afetaram a continuidade do projeto.

Domingo, 04 de Outubro de 2015 às 09:39, por: CdB
Por Redação, com ABr - de Brasília: Em junho de 2006, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a Itaboraí para lançar a pedra fundamental daquele que seria o maior empreendimento da história da Petrobras, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). O anúncio oficial da construção do polo petroquímico havia ocorrido em 28 de março de 2006. Com uma previsão inicial de investimento de US$ 6,5 bilhões, a obra deveria ficar pronta em 2011 com cerca de 45 quilômetros quadrados (km²) de área, duas refinarias, uma planta de processamento de gás natural e uma planta petroquímica de última geração.
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A obra deveria ficar pronta em 2011 com cerca de 45 quilômetros quadrados
Quase uma década depois, a construção foi postergada e seu futuro é incerto. O encarecimento das obras, a queda do preço do barril de petróleo e a concorrência do gás de xisto nos Estados Unidos afetaram a continuidade do projeto. O Plano de Negócios e Gestão 2015-2019 da Petrobras prevê a continuidade das obras da unidade de processamento de gás natural, que teve o início adiado de 2016 para 2017. Em relação às outras obras paradas, a estatal informou, em nota à Agência Brasil, que 85% tiveram “avanço físico” e seguirão a estratégia prevista no plano. De acordo com a petrolífera, cerca de 12.650 pessoas estão trabalhando nas obras, que somam 19 grandes contratos de construção e montagem. Já as obras das duas refinarias estão paradas e as empresas responsáveis estão sendo investigadas pela Operação Lava Jato, que apura fraudes e pagamento de propina em contratos da estatal com empreiteiras e construtoras. As obras da planta de processamento de gás natural deverão ficar prontas em meados de 2017. Quanto à construção da primeira das duas refinarias previstas para o Comperj, o chamado “trem 1”, foi suspensa no final do ano passado em decorrência das dificuldades de caixa da empresa. A segunda não saiu do papel. Gás de xisto Para alguns especialistas, a descoberta de reservas gigantes do gás de xisto (o gás não convencional) nos Estados Unidos afetou o Comperj. O gás de xisto é mais barato que o gás natural, que seria usado para abastecer o polo em Itaboraí (RJ), elevando os custos do empreendimento e tornando-o menos competitivo. O uso desse gás impactou globalmente o setor petroquímico, levando empresas a transferirem para a região do Golfo do México grandes empreendimentos, como é o caso da Braskem, braço petroquímico do grupo Odebrecht, que seria sócia da Petrobras no Comperj. - O gás nos Estados Unidos e no México está muito barato, em torno de US$ 3 o milhão de BTU - enquanto o gás do pré-sal no Brasil - que iria abastecer o Comperj, sai muito caro. Tem ainda a logística de investimento para trazer este gás, o custo da exploração em águas profundas. O gás do pré-sal sairia em torno de US$ 10 a US$ 12 o milhão de BTU, quase quatro vezes mais - disse o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, o Brasil não tem atualmente condições de oferecer um gás mais barato que o de xisto e considera que uma saída para o Comperj seria investir em refino de derivados de petróleo. - Não temos como competir em termos de custo com isso [o gás de xisto]. Não acredito na retomada do Comperj enquanto polo de petroquímica. Mas sim como parque voltado para o refino de derivados - disse Gouvêa Vieira. Na avaliação do professor de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Luiz Pinguelli Rosa, a inviabilidade do empreendimento da Petrobras não está relacionada ao gás de xisto. - Não tem absolutamente nada a ver uma coisa com a outra. O gás de xisto é um produto para o mercado dos Estados Unidos e, portanto, tem um custo local. É uma solução que os americanos encontraram para o mercado deles. Nós somos brasileiros, e não americanos, e não pagamos pelo gás o preço que pagam por lá. O gás de xisto é barato para eles, porque na estrutura do preço do gás pesa muito o transporte, mas ele não será barato para nós - disse. Lava Jato Para Pinguelli Rosa, o superfaturamento das obras, provocado pela corrupção, tornou os custos do Comperj inviáveis. - A confusão em torno da continuidade ou não do projeto é decorrente dos custos, que ficaram muito altos, principalmente com a corrupção. Mas a necessidade de se construir refinarias no país é absoluta, porque estamos importando a peso de ouro os derivados - disse o professor da Coppe. A Operação Lava Jato tem investigado fraudes e pagamento de propina em contratos da Petrobras firmados com construtoras e empreiteiras. As investigações levaram à prisão de ex-diretores da estatal e donos e executivos das maiores construtoras do país. O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, também cita as repercussões da Lava Jato e as dificuldades de caixa enfrentadas pela Petrobras como fatos que afetaram o andamento do complexo. - O projeto do Comperj foi mal planejado e concebido e, com as denúncias da Lavo Jato, a gente sabe que passou a ter custos muito elevados, muito acima do que se pensava. Evidentemente que a questão internacional também prejudicou o empreendimento, porque no projeto original era para ter duas refinarias. Mas o projeto principal era o polo petroquímico, que geraria uma massa de emprego muito grande para a região - disse o especialista no setor de energia. Segundo Adriano Pires, o Comperj não deve ser descartado. “Eu acho que no curto e médio prazo, o Comperj não sai, mas se voltarmos a ter planejamento de longo prazo, a recuperar a estabilidade regulatória e a segurança jurídica o projeto pode ser retomado, porém em outras condições, com um sócio estratégico.” Em diversas ocasiões, a diretoria da Petrobras tem dito que a continuidade do projeto depende de encontrar investidores privados. Para firmar essas parcerias, o presidente da Firjan ressalta que o governo deve transmitir segurança ao mercado de que não haverá intervenção e que não pretende congelar novamente o preço dos combustíveis.
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