Rio de Janeiro, 06 de Maio de 2026

Apolônio, a aventura da esperança

Por Mauro Santayana - Apolônio pertenceu àquela estirpe de homens que conferiram honra ao século XX. Homens como Orwell, Hemingway, André Malraux e Arthur Koestler Dedicou toda sua vida ao sonho da igualdade e da fraternidade entre os homens. (Leia Mais)

Segunda, 26 de Setembro de 2005 às 09:26, por: CdB

Apolônio pertenceu àquela estirpe de homens que conferiram honra ao século XX. Homens como Orwell, Hemingway, André Malraux e Arthur Koestler Dedicou toda sua vida ao sonho da igualdade e da fraternidade entre os homens.

André Malraux deu ao seu belo romance sobre a Guerra Civil da Espanha o título de "L'Espoir". Anos antes, na oposição a Bernardes, O Estado de São Paulo, ao elogiar o jovem capitão Luís Carlos Prestes, chamou-lhe "O Cavaleiro da Esperança". Naqueles anos, em que o mundo hesitava entre o passado e o futuro, a esperança arregimentava alguns homens, jovens, sonhadores, solidários com o sofrimento dos oprimidos. O conflito entre a direita e a esquerda eclodia no mundo inteiro, mas iria manifestar-se de maneira sangrenta e cruel na Espanha.

A agonia da República e a vitória dos fascistas não foi decidida na frente de Teruel e na conquista da Catalunha pelos franquistas. A Espanha sucumbiu em nome das razões de Estado, que levaram ao provisório entendimento entre Hitler e Stalin, consagrados no acordo firmado por Molotov e Ribbentrop em maio de 1939. Segundo alguns, Stalin decidira ganhar tempo para preparar a defesa contra a previsível invasão nazista. A França e a Inglaterra, na ilusão de que contentariam o Führer, e evitariam a guerra que ele já preparava, deixaram de ajudar a Espanha, da mesma forma que - na mesma ocasião, ou seja, em setembro de 1938 - essas duas nações, mais a Itália, entregavam a Tcheco-Eslováquia a Berlim, na reunião de Munique. Foi uma decisão que iria custar caro ao mundo, porque os alemães e italianos, sob o silêncio da Europa, intensificaram sua intervenção armada ao lado de Franco, naqueles meses cruciais, testando as armas que seriam usadas logo depois.

É dessa guerra civil que Apolônio de Carvalho, em companhia de vinte outros brasileiros, participará, integrando as brigadas internacionais, constituídas por militantes da esquerda do mundo inteiro. Tenente do Exército, expulso aos 23 anos das fileiras, ele será o mais importante dos combatentes de nosso País, no Exército Republicano. A saga do lutador prosseguirá no terrível sofrimento dos campos de refugiados da República espanhola, no sul da França. Essas sobras humanas viveram primeiro ao ar livre, em pleno inverno, para depois serem abrigadas em barracas convertidas em campos de concentração logo no início da Segunda Guerra. A França, pressionada pelos alemães, tratou os refugiados como se fossem a escumalha da Europa. Arthur Koestler, que esteve detido em um deles - o de Vernet - dá às suas memórias de quando lá esteve o título de La lie de la Terre, (A borra da Terra). Koestler resume o que era o campo de Vernet:

"'... é preciso notar que, do ponto de vista da alimentação, das instalações e da higiene, Vernet se encontrava abaixo, mesmo, de um campo de concentração nazista. Uns trinta homens da Seção C, que haviam sido antes internados em diferentes campos alemães, entre eles os mais terríveis, Dachau, Oranienburg e Wolfsbuttel eram especialistas na matéria. Eu posso afirmar que a alimentação na prisão de Franco (em que estivera Koestler, três anos antes) era, de longe, mais substancial e mais nutritiva, e que, na cela de Sevilha, não tínhamos trabalho forçado a fazer, ainda que estivéssemos em plena guerra civil" (La lie de la Terre, pg. 137, Calmann-Lévy, Paris, 1971).

É de um desses campos que Apolônio conseguirá fugir, a fim de incorporar-se à Resistência, e chegar ao fim da guerra no comando de milhares de homens no Sul da França. Tenente no Exército Republicano e comissário político na frente do Ebro, coronel do Exército Francês, Apolônio pertenceu àquela estirpe de homens que conferiram honra ao Século 20. Homens como Orwell, Hemingway (que, na realidade, não chegou a combater), André Malraux (organizador, comandante e herói de uma esquadra internacional da aviação republicana), e o próprio Koestler. Homens como os tchecos Rudolf Slanský, Frantis

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