Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Apoio demais à economia tende a acarretar nova crise, diz economista

Encher o mercado de dinheiro funcionou no início da crise, mas poderá se transformar em uma nova ameaçar à economia. É o que pensam especialistas que, a partir de agora, são favoráveis à suspensão de certas medidas de apoio conjuntural. (Leia Mais)

Domingo, 13 de Dezembro de 2009 às 13:20, por: CdB

Encher o mercado de dinheiro funcionou no início da crise, mas poderá se transformar em uma nova ameaçar à economia. É o que pensam especialistas que, a partir de agora, são favoráveis à suspensão de certas medidas de apoio conjuntural. Manter os juros baixos durante anos foi um dos principais fatores que desencadearam a crise imobiliária, dizem analistas de mercado. Primeiro tremeram os mercados imobiliários, depois os bancos e, no final, a economia mundial. O colapso final da economia e dos bancos só pôde ser evitado através de operações de emergência com programas conjunturais bilionários.

Os bancos centrais injetaram quantias gigantescas de dinheiro como remédio. E com sucesso. O paciente, chamado sistema capitalista, foi poupado do pior, que seria a sua falência em nível global. As consequências das medidas são, por outro lado, juros baixos e demasiada liquidez no mercado – ou seja, justamente aquilo que causou a crise.

Medicamentos na dose certa ajudam. Mas quem abusa pode voltar a adoecer no final. Por isso há quem esteja buscando estratégias de saída e ponderando a hora certa de suspender as medidas de apoio. A resposta significa, de qualquer forma, uma espécie de malabarismo.

Se o medicamento for retirado cedo demais – ou seja, se a quantidade de dinheiro for reduzida antes da hora e os programas conjunturais forem suspensos prematuramente –, então a conjuntura, que estava em vias de recuperação, volta para a cama. Caso o paciente tome remédio demais, corre o risco de adoecer por causa dos efeitos colaterais. Ou seja, se os juros continuarem baixos demais por muito tempo, novas bolhas podem se formar no mercado financeiro, aumentando o risco de inflação e de recessão.

– A situação conjuntural é que deverá definir a hora e o ritmo certos de se suspenderem as medidas de apoio. Vemos que a recuperação econômica na Europa e também no mundo vem ocorrendo de forma relativamente sincrônica e tem ganhado força – afirma Michael Heise, economista-chefe da maior seguradora do mundo, a alemã Allianz SE.

As tendências no mercado financeiro parecem confirmar a tese de Heise. Desde maio, a taxa básica de juros na zona do euro é de 1%. E ela nunca esteve tão baixa. A taxa de juros efetiva de mercado está até mesmo abaixo disso, porque o Banco Central Europeu proporciona liquidez quase ilimitada ao sistema financeiro. De um lado, há muito dinheiro em circulação, de outro, são concedidos poucos créditos, porque muitas empresas decidem investir menos em tempos de crise. A tendência é de investir o dinheiro excessivo, o que desperta o apetite dos investidores em especular com dinheiro barato e aplicar, inclusive, em investimentos de risco.

Por isso, o Banco Central Europeu volta a alertar para o perigo de se gerarem novas bolhas nos mercados financeiros.

– Mesmo que o clima esteja melhorando nos mercados financeiros, o paciente não deve ser tolhido imediatamente das medidas de auxílio para sua recuperação. É necessário haver cuidado, para que os impulsos não sejam retirados de forma muito abrupta e rápida – afirma o economista.

Os programas conjunturais do governo devem, primeiramente, ser mantidos, porque ainda serão necessários no próximo ano.

– Se esses programas forem retirados, rapidamente sentiremos efeitos sobre a conjuntura – acrescentou.

Já na política monetária, entretanto, é possível começar agora a “conter o grau de expansão”. Sobretudo porque mudanças na política monetária só começam a fazer efeito depois de um bom tempo, lembra o analista. Se os juros aumentarem hoje, mal teremos um efeito de desaquecimento no ano que vem, acredita Heise.

No momento, a tendência é mais de proteger a própria moeda contra uma valorização em relação ao dólar. Por isso, muitos bancos centrais em todo o mundo continuam comprando dólar, o que faz com que mais dinheiro seja injetado no sistema. Heise acredita, entretanto, que a prudência vai imperar.

– Acredito que a disposição para se sair dessa política monetária expansiva deverá vir ao longo do tempo, quando as pessoas estiverem certas de que essa recuperação conjuntural se firmou de alguma forma e de que não corremos mais o risco de cair novamente numa recessão – concluiu.

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