Rio de Janeiro, 05 de Setembro de 2026

Ano novo, vida nova

Por Mauro Santayana - Uma coisa parece certa: Lula tentará, com o novo ministério, encontrar linguagem comum e maior coesão da equipe. Isso exigirá uma arquitetura de relojoeiro, a fim de conciliar os interesses e as idéias que restarem dos partidos da coalizão. (Leia Mais)

Terça, 09 de Dezembro de 2003 às 08:36, por: CdB

Quando se fala em reforma do governo, cruzam, pelo gramado da Esplanada dos Ministérios, os zumbis do medo e os duendes da esperança. Uma pasta ministerial é vista, pelos que a aspiram, como a suprema aspiração dos que sabem não ter condições de descer a ampla avenida até o Palácio do Planalto. Perdê-la, para os que as ocupam, é, no mínimo, um desassossego. Alguns podem explicar a demissão como inevitável jogo político: são os candidatos a prefeitos nas cidades importantes. Os outros, sobretudo os que não são políticos militantes, não sabem como dar a notícia à mulher, nem como consolar os assessores trazidos dos Estados e obrigados a retornar para a planície, sem a certeza de uma sombra e uma fonte.

O sofrimento é ainda maior quando as notícias de reforma ministerial coincidem com as festas de fim de ano: os que estão ministros não sabem se estarão ministros no Carnaval. De nada adiantam os atestados de boa conduta presidencial, com os avisos de Lula que esse, ou aquele, permanecerão até o fim do mandato. As razões políticas são móveis, como "la piuma al vento". E, conforme advertia De Gaulle, "o primeiro dever de um chefe de Estado é a ingratidão".

Mas uma coisa parece certa: Lula tentará, com o novo ministério, encontrar linguagem comum e maior coesão da equipe. Isso exigirá uma arquitetura de relojoeiro, a fim de conciliar os interesses e as idéias que restarem dos partidos da coalizão. Enfim, como se costuma dizer, se trata de um trabalho para profissionais. Lula, que soube tanger os variados rebanhos do PT (que é uma confederação de grupos ideológicos e políticos)tem disso experiência. Resta saber se terá, na confusão geral destes tempos, a necessária paciência.

A reforma política

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: a substituição da votação uninominal para os cargos legislativos pela eleição em listas fechadas, decididas pelos partidos, poderia fortalecer as organizações partidárias, mas não é certo que venha a beneficiar a democracia. O sistema funciona bem onde as instituições são tradicionalmente fortes, como na Europa, mas funcionam melhor quando se associam também à votação distrital.

Do jeito que está sendo aprovada, a reforma significará o fortalecimento de nova oligarquia, a oligarquia dos que, mediante os instrumentos conhecidos, dominam as organizações partidárias - principalmente quando possam dispor de recursos públicos abundantes. Os cidadãos estarão, mais do que hoje, submissos à chamada "classe política". E nada é menos democrático do que a existência de uma casta de políticos. O sistema é tanto mais democrático quanto mais os cidadãos comuns participem das decisões. O sistema representativo deve ser representativo, não substitutivo. Democracia, mesmo, é o regime em que todos são políticos.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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