Rio de Janeiro, 01 de Maio de 2026

Ano Novo, Governo Novo

Por Mauro Santayana - Lula já deve saber que sua chegada à Presidência não lhe deu a carteira de sócio remido do Country Club. Quando deixar o poder, os donos do dinheiro, por mais que os agrade, poderão até recebê-lo, por deferência, em seus escritórios, mas jamais em seus salões. (Leia Mais)

Segunda, 14 de Novembro de 2005 às 17:55, por: CdB

Crescem os rumores de que, empurrado pela crise, o Chefe de Governo aprofundará a reforma ministerial, a partir da exoneração, a pedido, como é de costume, do ministro Antonio Palocci. Ele tentará manter o frágil equilíbrio entre a ortodoxia econômica e o pensamento de esquerda, ainda presente nas bases do PT, ou romperá essa convivência atribulada, optando por uma ou outra ponta do arco político.

Qualquer observador criterioso entende que a sociedade brasileira, tendo em vista a realidade nacional, não se encontra preparada para um governo de caráter revolucionário. Não há como avançar com o ímpeto de Chávez, que está promovendo a mais efetiva distribuição de renda já ocorrida na América do Sul, embora fosse possível ousar um pouco mais, como está fazendo Kirchner. O Brasil, pelas dimensões e pela diversidade, é muito diferente da Venezuela. Tão logo um governo de centro esquerda se forma entre nós, seus membros se dão conta de que as circunstâncias herdadas são lastros pesadíssimos, que impedem à nave do Estado avançar como se pretende.

Só conseguem algum êxito os governos que buscam, no centro, o equilíbrio necessário. Mas não se faz o centro na soma de direita e esquerda, com a divisão por dois. Só conseguem governar bem, pelo centro, os que estão convencidos dessa necessidade. O grande equívoco do governo Lula - e já tivemos a oportunidade de o comentar - foi o de formar a sua equipe com conservadores e progressistas, mas deixando maior poder com a direita, escancarada ou dissimulada. Ao convidar o banqueiro Henrique Meirelles, que se elegera deputado federal pelo partido adversário, para a presidência do Banco Central, o presidente deu passo perigoso. Ele sabia que, desde que foi criado pelos militares, o órgão esvaziou o Ministério da Fazenda. Ao nomear um notório servidor do sistema financeiro internacional e correligionário dos tucanos, para a ele presidir, o governo talvez pensasse em garantir a sua estabilidade no poder, mas, em conseqüência, provavelmente tenha arriado as suas bandeiras.

O presidente só teve, na administração econômica, um homem competente, nacionalista, e convencido da necessidade de caminhar pelo centro, o economista Carlos Lessa, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico. Lessa entrou logo em rota de colisão com a esquerda e com a direita; com Mantega, que lhe queria o lugar, e com o Banco Central, empenhado em beneficiar o sistema financeiro em detrimento do setor produtivo. Não é segredo que os lucros dos bancos que operam no Brasil são os mais altos do mundo. No propósito de conter as reivindicações sociais, o governo optou por um assistencialismo que aliviou, e muito, o problema crônico da fome nas áreas mais pobres do País, mas não avançou na Reforma Agrária. Uma série de circunstâncias favoráveis, como o surgimento de novos mercados internacionais, permitiu-lhe reduzir a dependência externa, mas esses resultados foram, em sua maior parte, transferidos ao setor financeiro, mediante as altíssimas taxas de juros.

Chegou o momento em que o Presidente terá que fazer a sua escolha. Dentro de poucos meses os candidatos a cargos eletivos terão que deixar o governo. Isso poderá conduzi-lo a adiantar-se aos fatos e mudar completamente o Ministério. Mas, onde encontrar os ministros? Se optar por um ministério acadêmico, como fez Fernando Henrique, onde o buscará? Não poderá buscá-lo nas corporações, como fez ao recrutar Furlan e Rodrigues, representantes da indústria e das atividades agropecuárias (é provável que ambos continuem, apesar dos rumores de que pretendem disputar as eleições parlamentares), nem se arriscará a escolhê-los no PT histórico. O melhor seria o recrutamento de cidadãos de notória capacidade administrativa e reputação ética inabalável, que se situem no centro do espectro, mesmo que sejam desconhecidos dos meios políticos, a fim de separar o governo da campanha eleitoral. Sendo ou não candidato, ele daria poderosa resposta a seus adversários, e a

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