O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, disse no sábado estar ''profundamente preocupado'' com as suspeitas de corrupção no extinto programa humanitário da ONU no Iraque e elogiou a decisão do secretário-geral da entidade, Kofi Annan, de investigar o assunto.
Annan está sob pressão de Powell e de políticos iraquianos e norte-americanos para investigar acusações de subornos e desvio de verbas que teriam sido cometidos pelo regime de Saddam Hussein contra o bilionário programa da ONU que previa a troca de petróleo por gêneros essenciais.
- Estamos preocupados, profundamente preocupados de que o dinheiro que deveria ter ajudado o povo iraquiano tenha sido desviado por Saddam Hussein, mais uma vez demonstrando a natureza do regime - disse Powell a jornalistas durante passagem pelo Kuweit.
- Esse dinheiro não foi usado para alimentação, saúde ou água potável. Foi usado para palácios e luxo - acrescentou ele.
O programa movimentou mais de 65 bilhões de dólares em rendimentos do petróleo sob controle da ONU, que o estabeleceu para aliviar as conseq ências das sanções econômicas sobre o país. Ele foi encerrado no ano passado, depois da invasão norte-americana que derrubou Saddam.
Em carta ao Conselho de Segurança, que supervisionava o programa, Annan pediu na noite de sexta-feira apoio, mas não autorização, para investigar o caso. Ele prometeu mais detalhes na próxima semana.
A ONU já iniciou uma investigação interna entre seus funcionários. Annan disse que agora é necessário criar ``um inquérito independente de alto nível'' sobre o caso. Segundo o secretário-geral, o administrador norte-americano do Iraque, Paul Bremer, e o Conselho de Governo nomeado pelos EUA prometeram apresentar documentos que ajudem na apuração.
Ahmed Chalabi, chefe do comitê de finanças do Conselho de Governo e duro crítico da ONU, está liderando a investigação no Iraque.
Um inquérito completo, segundo fontes da ONU, necessitaria do apoio de membros do Conselho para investigar a participação de intermediários que compraram petróleo, de empresas que forneceram produtos ao Iraque e do banco francês BNP-Paribas, que administrava a conta conjunta da ONU e do Iraque.
Em sua carta ao Conselho, Annan disse que não só o antigo regime iraquiano tinha um papel importante no gerenciamento do programa, mas também a direção da ONU.
Ele disse que as acusações publicadas na imprensa, sejam ou não fundamentadas, ``precisam ser levadas a sério e analisadas imediatamente, a fim de trazer à luz a verdade e evitar a erosão da confiança e esperança que a comunidade internacional deposita na organização''.
O Escritório de Contabilidade dos EUA, órgão ligado ao Departamento do Tesouro, está tentando localizar e congelar pelo menos 10 bilhões de dólares que pertenceriam ao Iraque e teriam sido desviados.
Em relatório na quinta-feira, o escritório acusou Saddam de ficar com 5,7 bilhões de dólares, resultado de venda ilegal de petróleo para Síria, Jordânia, Turquia e outros lugares. A elite iraquiana teria se apropriado de outros 4,4 bilhões ao cobrar comissões e sobretaxas ilícitas nas vendas de petróleo e compras de bens civis.
O Conselho de Governo iraquiano já divulgou uma lista de supostos beneficiários das fraudes. Um deles é Benon Sevan, chefe do programa da ONU, que negou veementemente as acusações.