Rio de Janeiro, 25 de Maio de 2026

Anistia acusa EUA de ataque aos direitos humanos

Quarta, 25 de Maio de 2005 às 06:31, por: CdB

Quase quatro anos depois dos ataques de 11 de setembro a Nova York e Washington, os direitos humanos estão acuados em todo o mundo e os Estados Unidos são os maiores responsáveis, disse nesta quarta-feira a entidade Anistia Internacional.

Do Afeganistão ao Zimbábue, o quadro é sombrio. Os governos oprimem cada vez mais o estado de direito, guiando-se pelo exemplo da "guerra ao terror" dos Estados Unidos, segundo o grupo.

- Os EUA como hiperpotência sem rival política, militar e economicamente dão o tom para o comportamento governamental em todo o mundo - disse a secretária-geral Irene Khan no prefácio do relatório anual da Anistia.

- Quando o país mais poderoso do mundo mete o nariz no estado de direito e nos direitos humanos, concede uma licença aos demais para que cometam abusos com impunidade - escreveu ela.

A Anistia, com sede em Londres, citou as fotos, divulgadas no ano passado, de abusos de detentos em Abu Ghraib (Iraque), os quais, segundo a entidade, não foram adequadamente investigados, e a prisão sem julgamento de "combatentes inimigos" na base naval de Guantánamo, encravada em Cuba.

- A detenção de Guantánamo se tornou o gulag (campo de prisioneiros soviético) dos nossos tempos, entranhando uma prática de detenção arbitrária e indefinida, em violação ao direito internacional - disse Khan.

Ela também mencionou as tentativas norte-americanas de driblarem suas próprias regras contra o uso da tortura.

- O governo dos EUA foi muito longe na restrição à aplicação da Convenção de Genebra e na 'redefinição' da tortura - afirmou, citando a detenção secreta de suspeitos e a prática de entregar alguns deles a países onde a tortura não é ilegal.

O presidente George W. Bush sempre cita a dignidade humana como um alicerce dos EUA, mas a Anistia acha que há uma grande distância entre a retórica e a realidade.

-Durante seu primeiro mandato, os EUA se mostraram distantes dos paladinos globais dos direitos humanos que proclamam ser - disse o relatório.

Mas os EUA não são de forma alguma o único ou mesmo o pior dos violadores dos direitos humanos. Homicídios, agressões e abusos contra mulheres e crianças se espalham pelos quatro cantos do globo, segundo a Anistia.

- Os abusos aos direitos humanos no Iraque e no Afeganistão estavam longe de serem as únicas repercussões negativas da reação aos terríveis eventos de 11 de setembro de 2001. Desde aquele dia, o marco dos direitos humanos internacionais é atacado e prejudicado tanto por governos quanto por grupos armados - disse a entidade.

A distinção cada vez mais tênue entre guerra ao terrorismo e guerra à drogas levou alguns governos latino-americanos a usarem militares para lidar com crimes que são normalmente atribuição da polícia, afirmou o relatório.

Também na Ásia, a guerra ao terrorismo é pretexto para uma repressão cada vez maior contra sociedades já prejudicadas pela pobreza, pela discriminação, por uma série de conflitos de baixa intensidade e pela politização da ajuda humanitária.

A África é outro continente que permanece imerso em guerras e repressão política. O lamentável fracasso da comunidade internacional em agir conjuntamente para acabar com a carnificina na região sudanesa de Darfur é motivo de vergonha, segundo o relatório.

Khan também condenou a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) por não defender aqueles que supostamente dependeriam da sua ajuda. Ela "se tornou um fórum para negociatas sobre direitos humanos", disse ela.

- No ano passado, a Comissão retirou o Iraque do escrutínio, não chegou a um acordo sobre o que fazer na Chechênia, Nepal ou Zimbábue e permaneceu em silêncio sobre Guantánamo - ressaltou.

Tags:
Edições digital e impressa