O governo prepara um pacote fiscal que, entre outras medidas, vai reduzir impostos para incentivar investimentos privados e tentar fazer o país crescer ao menos 5% ao ano. Segundo a equipe econômica, serão beneficiados setores que, ao mesmo tempo, envolvam o maior número de empresas e gerem o máximo de empregos. Especialistas em política industrial opinaram sobre as áreas que mereceriam estímulo governamental. A avaliação geral é que o princípio do pacote está correto. Para eles, embora existam setores específicos com suas dificuldades particulares, o pacote deveria dar atenção ao comércio de máquinas e equipamentos, à melhoria da infra-estrutura e à inovação tecnológica.
Para o economista Carlos Frederico Rocha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o governo precisará priorizar incentivos ao setor de bens de capital, por duas razões. A primeira é que a venda de máquinas e equipamentos normalmente acompanha grandes planos de investimento das empresas. A segunda diz respeito à taxa de juros do Banco Central (BC).
Um dos fatores que o BC leva em conta ao definir a taxa é o parque produtivo. Se o banco acha que a queda dos juros estimulará a economia a ponto de faltar bens e serviços para atender o consumo, pára de cortá-los e pode até subi-los. Procura de mercadorias, sem oferta, pode terminar em inflação.
- O país precisa aumentar o nível de investimentos, que devem ser barateados. O aumento da capacidade é muito importante para viabilizar o crescimento do país e a redução dos juros - diz Rocha.
O empresariado sabe que precisa investir mais para reduzir os pretextos conservadores do BC. Mesmo sem grandes projetos realizados em 2006, a situação já seria confortável. Pesquisa recente da Confederação Nacional da Industrial (CNI) mostra que, apesar de somente 36% das empresas terem completado este ano os investimentos planejados, 80% do setor industrial acreditam que a capacidade está adequada para 2007.
No governo e no setor privado, há um certo consenso de que o país precisaria investir um valor equivalente a, no mínimo, 25% do total de riquezas produzidas num ano, o produto interno bruto (PIB). Hoje, a taxa está em 20%.
- O investimento não vai se materializar por acaso. Para chegar a 25%, é preciso uma contrapartida mínima do setor público, sobretudo em infra-estrutura - diz o economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco.
Infra-estrutura e meio ambiente
O investimento em infra-estrutura é a área mais sacrificada pela política de pagamento de juros da dívida, iniciada em 1999. O dinheiro público vai para pagar os juros, e não para investimentos.
- Os gargalos da economia brasileira estão na infra-estrutura. O governo Lula e os anteriores não investiram. É preciso abrir os gargalos em energia, transportes e logística, para proporcionar outros investimentos - diz o engenheiro especializado em política industrial Mauro Zilbovicius, da Universidade de São Paulo (USP).
Nesta terça-feira (21), o presidente Lula reúne-se com a equipe econômica para tratar só de investimentos em infra-estrutura. O caminho provável para aumentá-los será usar, de fato, um dispositivo que neutraliza parte do pagamento de juros, o Projeto Piloto de Investimentos (PPI). Criado em 2004, o PPI ainda não foi usado de verdade para esterilizar o pagamento de juros.
Também para destravar a infra-estrutura, o presidente Lula está disposto a enquadrar a área ambiental do governo. Ele quer mais rapidez na concessão de licenças ambientais para determinadas obras, por exemplo. Na última sexta-feira, discutiu o tema com a ministra da Meio Ambiente, Marina Silva, e os presidentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e da Fundação Nacional do Índio (Funai).
Apoio setorial e política industrial
Para Luiz Bahia, coordenador do boletim de conjuntura industrial do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o governo