Um aumento do salário mínimo para 275 reais teria impacto limitado sobre a economia do país e poderia até mesmo abater o crescimento do ponto de vista fiscal, afirmaram analistas e economistas nesta sexta-feira.
O Senado impôs na quinta-feira uma das maiores derrotas ao governo com a aprovação de um salário mínimo de 275 reais. A medida será reavaliada pela Câmara, que já havia aprovado a proposta do governo de 260 reais.
Para Paulo Levy, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), esses 15 reais adicionais não ajudariam a estimular o consumo.
"Pensar que aumentar salário mínimo pode aumentar demanda agregada é uma idéia falaciosa", disse Levy à Reuters. "Salário mínimo não é instrumento de demanda."
Isso porque, segundo ele, no setor privado as empresas pagam salários acima do mínimo e atualmente no Brasil ele afeta mais o setor público e a Previdência.
Estudo feito pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) mostra que 30 milhões de pessoas ganham um salário mínimo por mês no Brasil, entre funcionários do setor público e do privado.
Se o mínimo aumentar em 15 reais, esses trabalhadores injetariam 450 milhões de reais por mês, ou 5,5 bilhões de reais por ano, na economia.
"Sem dúvida é um valor a mais na economia, mas isso não traria um grande crescimento do comércio, da economia", disse Fernanda Della Rosa, diretora da assessoria econômica da Fecomercio-SP.
Para ela, não haveria aquecimento econômico porque a parcela de pessoas beneficiada pelo aumento do mínimo é muito pequena.
Mesmo se subir para 275 reais, o mínimo estaria bem longe do patamar considerado adequado para o Brasil, de 1.522 reais em maio, segundo o Dieese, que calcula o valor do mínimo para cobrir os custos de uma família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social --como consta na Constituição.
Levy, do Ipea, afirmou que a elevação do mínimo teria um impacto negativo do lado fiscal, já que aumenta os gastos do governo com a Previdência e pode diminuir o superávit do país.
Paulo Picchetti, economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), disse que uma aceleração da demanda decorrente do aumento de 15 reais seria contrabalançada por esse efeito nas contas do governo.
"Na demanda pode (ter algum efeito), mas no crescimento é outra história... porque você pode ter um movimento negativo de redução de investimentos" do governo para fechar o superávit.
O governo tem como meta fazer um superávit primário fiscal --que exclui os gastos com o pagamento dos juros da dívida --equivalente a 4,25 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) este ano.
Questionado sobre o impacto do salário mínimo de 275 reais sobre as contas públicas, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, esquivou-se. "Nós não estamos contando com essa hipótese", afirmou a jornalistas.