Análise: Restabelecer economia do Egito é vital para o Oriente Médio
O Conselho Militar do Egito enfrenta um grande desafio para estabilizar a economia, depois de 18 dias de protestos que podem reduzir o crescimento do país pela metade este ano. Em curto prazo, analistas esperam que aconteça uma transição ordenada para a democracia e que isso pode parar a evasão de capital que chegou até a US$ 1 bilhão por dia no auge dos protestos.
Domingo, 13 de Fevereiro de 2011 às 11:27, por: CdB
O Conselho Militar do Egito enfrenta um grande desafio para estabilizar a economia, depois de 18 dias de protestos que podem reduzir o crescimento do país pela metade este ano. Em curto prazo, analistas esperam que aconteça uma transição ordenada para a democracia e que isso pode parar a evasão de capital que chegou até a US$ 1 bilhão por dia no auge dos protestos. Muitos investidores também estão otimistas em relação às mudanças mais amplas para os negócios e políticas que podem surgir sob um governo livremente eleito, mas há pouca perspectiva de uma mudança no curto prazo.
– Em se tratando da economia, o Egito tem sido gerido pelos mesmos tecnocratas nos últimos trinta anos. Não acho que veremos muita mudança. A elite governante ainda está por aí. Sua política real é a de não mudar nada, até setembro – disse Tim Ash, diretor de pesquisa sobre pesquisa de mercados emergentes do Royal Bank of Scotland.
A economia do Egito movimentou US$ 217 bilhões em 2010, metade da economia do gigante do petróleo, a Arábia Saudita. O país é dependente de investimentos estrangeiros, turismo e impostos do Canal de Suez. Um mês antes dos protestos começarem, em 25 de janeiro, analistas consultados pela agência inglesa de notícias Reuters esperavam um crescimento de 5,4% para o ano fiscal que termina em junho, o segundo maior na região do Golfo Árabe, perdendo apenas para o Catar. O governo havia previsto um crescimento de 6%.
Mas, enquanto os bancos e algumas lojas estão reabrindo, os turistas, que respondem por entre 5% e 11% da economia, ainda estão evitando o destino turístico consagrado, fazendo com que as previsões de crescimento pareçam otimistas. Said Hirsch, um economista especialista em Oriente Médio da Capital Economics disse que a prioridade seria trazer a sociedade de volta à normalidade e permitir que as pessoas voltem a trabalhar.
– O papel dos militares será o de estabilizar a situação econômica – disse ele.
Nervosismo
No sábado, as autoridades adiaram a abertura do mercado de ações, pela segunda vez, de domingo para a próxima quarta-feira, e a libra egípcia teve que ser regulada por uma intervenção do banco central, na semana passada. No auge dos distúrbios, alguns analistas especularam que o banco teria que fazer um aumento emergencial das taxas de juros para ajudar a libra. O otimismo em relação à saída de Hosni Mubarak, que ajudou mercados emergentes em todo o mundo, torna essa medida menos provável, mas a fraqueza da moeda também aumenta a probabilidade de uma inflação mais elevada e para um eventual aumento das taxas.
As agências reguladoras também rebaixaram o status do Egito em um ponto, à medida que os protestos se intensificavam, citando um possível dano às já fracas finanças do Estado.
– Acreditamos que o banco central vai aumentar as taxas em 100 pontos de base, numa reunião emergencial esse mês, já que é provável que a inflação suba por causa da libra mais fraca – disse Dina Ahmad, estrategista de CEEMEA da BNP Paribas.
A baixa no consumo privado, que é responsável por cerca de 70% do PIB, a queda dos investimentos estrangeiros e o aumento do desemprego também devem afetar o desempenho econômico. Embora a promessa de Mubarak de dar um aumento salarial de dois dígitos para os trabalhadores do setor público, deva ser descartada, é provável que o governo de transição mantenha os gastos.
Juros mais baixos, subsídios mais altos e pressões para dar mais dinheiro aos desempregados também podem prejudicar a saúde fiscal do importador de petróleo bruto, com uma falha orçamentária que deve chegar aos 10 por cento do PIB este ano, de acordo com a BNP Paribas.
– Primeiro temos que voltar à normalidade. Depois, acho que a recuperação poderá ser relativamente rápida – disse Lars Christensen, analista sênior para mercado emergentes do Danske Bank.
Inflação
No longo prazo, a perspectiva é ainda mais nebulosa. Se a economia piora, qualquer instabilidade social resultante disso, pode se tornar uma preocupação mais grave e, para evitar isso, o Egito pode vir a receber um incremento de ajuda externa.
– Acho que é o caso dos Estados Unidos e dos países do Golfo levarem mais ajuda para o Egito. Muito dinheiro pode vir do Golfo – disse Hirsch.
Governantes do Golfo Árabe, assim como os EUA, vêem o Egito como um importante aliado para deter a crescente influência do Irã na região, e vão querer manter o país economicamente estável e saudável. Entre os países do Golfo, Iêmen, Bahrein e Kuwait já ofereceram dinheiro ou descontos, de olho nas populações jovens e descontentes. Além disso, a perspectiva de uma economia mais livre e transparente sob o novo regime, poderia atrair uma entrada substancial de investimentos, visando obter uma parcela na participação de mercado, no país de 80 milhões de habitantes.
– Quando você tem menos do que, digamos, 10% da população com contas em banco, existe um potencial de crescimento. Quando você tem uma economia paralela que é quase tão grande quanto o PIB oficial, você pode institucionalizar essa economia, então as pessoas vão começar a titularizar suas dividas, poderão ter mais empréstimos e comprar mais. Então pode haver um enorme efeito dominó – disse Karim Baghdady, diretor do banco de investimentos egípcio, Beltone, em Nova York.
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