Não podemos deixar de hesitar quando nos defrontamos com o discurso cristão sobre o amor
04/02/2011
Leandro Konder
O sentido com que a palavra amor costuma ser mais frequentemente utilizada é o de uma exasperação afetiva.
O prestígio do amor na literatura e nas artes é antigo e imenso. A grande dificuldade para enfrentar os mistérios e as dores do amor é o problema da falta de entrosamento dos indivíduos tais como se dispõem (ou não se dispõem) a assumir sua pertinência a uma comunidade.
Todos nós atravessamos a zona de dificuldades que, inevitavelmente, tumultuam a solidão em que o mercado – deus todo poderoso da sociedade burguesa – cria mecanismos cheios de sutileza e coerção para nos levar a fazer o que não queremos e a querer o que não fazemos.
O amor é sempre posto à prova e nunca se sai inteiramente bem. Os jovens, sobretudo, são chamados a decidir se investem em relações duradouras ou em “casos” fugazes.
A ternura pode ser temeridade de quem tem medo, ou desarmamento de quem quer e teme amar.
Quase todos os heróis de romances da segunda metade do século 19 e do século 20 são pessoas completamente envolvidas nos problemas da relação amorosa possível na sociedade burguesa.
Diversos leitores e críticos já apontaram essa convergência. Por mais que ela seja desejada, há um conflito inerradicável entre alguém que está amando e alguém que está calculando um prejuízo mensurável.
Recentemente, ficamos todos emocionados ao vermos a força do afeto amparando os sobreviventes da desgraça da região serrana do estado do Rio de Janeiro. E repetimos a nossa experiência de nos sentirmos envolvidos numa área obscura e incerta das relações entre indivíduos que se amam e indivíduos que não podem deixar de contabilizar prejuízos e distribuir recursos provenientes de movimentos de solidariedade.
De nada adianta contarmos a cruel persistência do nosso problema e verificarmos que ele não se modifica. A correção de uma distorção funcional como aquela que junta os indivíduos em torno de algumas ideias ou de alguns homens, é uma correção inviável. O que precisaria ser alcançado seria a reunião dos indivíduos, estimulados na sua generosidade, como vimos num movimento apenas esboçado no caso das inundações que causaram tanta destruição em Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis, entre outras cidades da região.
O que mais nos surpreende nesse e outros episódios é a força que o amor, geralmente vencido, mostra aos autonomeados vencedores. Mesmo golpeado sem clemência, o amor passa a ser a mais vigorosa das nossas reflexões.
Um poeta espanhol, Antonio Machado, que morreu na primeira metade do século 20, assinalou essa força na linguagem: “a las palavras de amor les senta bien su poquito de exageración” (às palavras de amor lhes cai bem um pouquinho de exagero). O amor procura se expressar na esperança daquele que se declara amoroso, mesmo que uma vitória pouco sólida na esfera da vida privada tenha chegado a alimentá-lo, misturando-se a mentiras e mistificações.
O amor é bem mais abrangente do que a paixão. Para o uso cotidiano do conceito a diferença, quando reconhecida, legitimava o sentimento em sua forma lapidar e também no nível do enlouquecimento amoroso. Ainda hoje há pessoas que acham que um amoroso possuído por uma paixão se põe automaticamente fora do âmbito da justiça e é imune aos juízos humanos em geral.
É extremamente difícil julgar grupos humanos em situação de conflito. Na verdade, estamos sempre julgando a nós mesmos. E, como não somos “neutros”, criamos artifícios para nossos “expedientes”.
O fato de percebermos o caráter interessado de nossas manobras na esfera da auto-ilusão não deve enfraquecer a consciência que temos de um certo facciosismo, por nós combatido mas reconhecido em suas características perversas.
Não podemos deixar de hesitar quando nos defrontamos com o discurso cristão sobre o amor. Esse discurso ora parece ser demasiadamente consolador e inócuo; em outros momento, porém, constatou-se uma reação interna e forte à perspectiva conservadora de que estava embutido.
Leandro Konder é colunista semanal do Brasil de Fato.
Publicado originalmente na edição 413 do Brasil de Fato