Os parisienses poderão conhecer, até 17 de julho, o universo denso e vazado do artista plástico brasileiro Amilcar de Castro (1920-2002) na primeira grande mostra dedicada ao conjunto de sua obra no exterior.
Com 62 obras, a exposição de Amilcar de Castro integra o Ano do Brasil na França - calendário de eventos que apresentam a cultura brasileira ao longo de 2005 - e é um dos principais eventos dentro da programação do Espaço Brasil, carro-chefe desse calendário. Entre as obras, que ocupam a Galeria de Arte Contemporânea, estão duas esculturas de tamanho médio, com cerca de 2,40m x 2,40m. A curadoria é de Evandro Salles.
Apenas em 1978 o artista plástico realizou sua primeira exposição individual no Brasil, e só este ano que o legado do escultor, desenhista e designer gráfico se prepara para ganhar o reconhecimento internacional.
Amilcar de Castro é mais conhecido como integrante do movimento neoconcretista brasileiro -cujo epicentro foi o Rio de Janeiro da época do fim dos anos 50, início dos 60 - um dos períodos mais férteis da arte moderna brasileira, que inclusive se diferenciava da produção norte-americana e européia da época por não ser estritamente formal.
Nascido em 1920, em Paraisópolis, Minas Gerais, Amilcar começou seus estudos em arte em 1944. Na época, o pintor Alberto da Veiga Guignard abriu a primeira escola de arte moderna em Belo Horizonte e sua didática consistia em ensinar o desenho através do uso de grafite duro ou com a ponta de prata, uma técnica muito mais incisiva, que não permitia retoques nem sombra ou volume. Aparentemente, a iniciação artística de Amilcar foi profundamente importante na forma como ele passou a encarar suas criações - nas quais se percebe o rigor do traço e do tratamento da matéria, no caso, o metal escultórico.
Em 1953, Amilcar de Castro já morava no Rio de Janeiro começa a trabalhar como programador visual na imprensa brasileira. Primeiro em revista semanais, como <i>Manchete</i> e <i>A Cigarra</i> - fundamentais na identidade do design brasileiro - e depois em jornais, como em 1957-58, quando foi convidado para reformular o projeto gráfico do <i>Jornal do Brasil</i>. A valorização dos espaços vazios, em contraposição ao preto dos tipos, foi novidade na época e acabou se tornando padrão nos veículos de massa. Além de ter impulsionado uma reforma até editorial no JB - que no fim dos anos 50 se alinha com a vanguarda artística brasileira.
No ínicio da década de 70 sua produção artística se intensifica. Ao mesmo tempo que começa a largar o trabalho junto aos meios de comunicação, começa a se enveredar também pelo desenho. Os desenhos e pinturas são criados em série a partir de então e se prolongam até o fim da vida.
Já nas esculturas, Amilcar sempre partiu do plano e chegou até o espaço tridimensional, articulando substância e vazio. As secções que o artista cravava nas peças de metal funcionavam como dobras e como seu próprio olhar na matéria, permitindo que fosse torcida. Suas visões foram transformadas em realidade através do uso das chapas de aço Cor-Ten, cuja propriedade é caracterizada por um processo de ferrugem que se instala superficialmente, dando ao aço uma cor avermelhada, escura e irregular _um pouco menos perfeita, um pouco mais viva.