Rio de Janeiro, 20 de Setembro de 2026

Americanos se dispõem a trocar liberdades civis por segurança

Segunda, 07 de Junho de 2004 às 12:20, por: CdB

Hoje, nos Estados Unidos, presos podem ficar incomunicáveis por anos a fio, jornais são proibidos de fotografar caixões que chegam do Iraque e o governo monitora os livros que os cidadãos lêem e os filmes a que assistem.

Mas, para especialistas, ainda há espaço para a perda de mais liberdades civis em nome da segurança. Para esses estudiosos de história social e comportamento político, os norte-americanos estão com medo, e por isso estão dispostos a trocar direitos por segurança.

"Estamos em guerra", disse Ken Weinstein, do Hudson Institute, um centro de estudos de política. "É por isso que não nos incomodamos".

Também não há à vista um "ponto de saturação" que faça as opiniões mudarem, acrescentou Karlyn Bowman, uma especialista em pesquisas de opinião do American Enterprise Institute.

Logo depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, pesquisas mostraram que dois terços dos norte-americanos acreditavam que seria necessário abrir mão de algumas liberdades civis em nome da segurança do país. Um ano depois, esse número ainda se mantinha em 50 por cento, disse Bowman.

"As pessoas parecem estar bem confortáveis com o estado geral das coisas no que diz respeito às liberdades civis".

Historicamente, essa perda de liberdades em tempos de crise não é novidade nos Estados Unidos. "A questão é: o quão tolerante pode uma sociedade tolerante ser diante dos intolerantes que querem destruí-la?", disse Weinstein. "Esse processo é padrão na história americana".

Os historiadores lembram uma medida tomada em 1798 por causa do risco de guerra com a França. Segundo a lei, era proibido tecer críticas aos EUA em público. Editores foram presos e jornais fecharam as portas.

Durante a Guerra Civil, Abraham Lincoln suspendeu o direito ao habeas corpus. Na Primeira Guerra Mundial, o medo do comunismo provocou um sentimento antiimigração forte, com deportações e repressão violenta ao movimento trabalhista.

Em 1917, o Ato de Espionagem proibiu atividades antiguerra, e em 1918 foi proibido "expressar, imprimir, escrever ou publicar linguagem abusiva, vulgar, profana ou desleal" sobre o governo.

Na Guerra Fria, houve mais repressão do tipo. Pelo Ato Smith, ninguém podia pregar a queda do governo norte-americano.

Mas, para Isaac Kramnick, professor de governo da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, "todos esses momentos de medo não chegam nem perto da realidade do 11 de setembro e do modo como ele está sendo explorado e manipulado pelo regime de Bush".

"A detenção de pessoas sem acusação formal e coisas do tipo estão sendo justificadas pelo velho argumento da segurança nacional", afirmou.

Os especialistas afirmam que questões de liberdade civil, como o direito dos prisioneiros, não preocupam o americano médio. As pessoas tendem a desviar os olhos se o assunto não afetar diretamente sua vida pessoal.

Os norte-americanos mostram muito mais resistência nas pesquisas propondo grampos telefônicos ou monitoramento de emails, disse Bowman.

No entanto, há esperança. "Estamos nos encaminhando para uma ditadura fascista ou um regime fascista que nega liberdade civis? Duvido", disse Kramnick.

"Os norte-americanos reagem bem rápido quando acham que suas liberdades podem estar sendo afetadas num nível preocupante", afirmou Weinstein. "As políticas da administração Bush vêm sendo bem aceitas porque não cruzaram aquela barreira em que as pessoas dizem: 'Espere aí"'.

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