Os acontecimentos das últimas semanas fizeram com que os olhos do mundo se voltassem para a América Latina e, desta mirada, muita coisa se pode colocar sob a luz da análise. O povo equatoriano em rebelião botou para correr o presidente Lucio Gutiérrez, que ousou descumprir o pacto feito com a população durante o levante de 2000. Dolarizou a economia, rendeu-se ao Tratado de Livre Comércio com os EUA, garantiu "através da nomeação de juízes da Suprema Corte" a volta de dois ex-presidentes depostos pelo povo e apoiou o Plano Colômbia. Lula ofereceu ajuda e mandou um avião buscá-lo. Dias depois, a toda poderosa secretária de estado dos EUA, Condoleezza Rice, veio ao Brasil, passando por Chile, Colômbia e El Salvador como que a lembrar que é preciso que cada um dos presidentes "mantenha a ordem em casa". Além, disso, sem qualquer pudor, teceu comentários sobre o governo da Venezuela, dentro da lógica estadunidense de estar sempre policiando o mundo para garantir seus interesses. Segundo Rice, os Estados Unidos querem a Venezuela "livre e democrática", o que na linguagem do governo Bush significa: de joelhos diante dos interesses dos EUA.
O presidente brasileiro, Luis Inácio da Silva, por sua vez, agiu como um aluno aplicado do império fornecendo um iluminado palco para que a secretária de estado fizesse de forma explícita uma espécie de "chamado à guerra", quando se manifestou criticando a compra de armas por Hugo Chávez e convocou abertamente as nações vizinhas a somarem-se na "cruzada" de Washington contra Caracas. Essa não é uma novidade para quem acompanhou a também "cruzada" de Washington contra o Iraque, quando, baseados em mentiras sobre perigosas armas químicas, chamaram o mundo a apoiar o massacre que segue ocorrendo até os dias de hoje - com a heróica resistência do povo - mesmo depois de já se ter descoberto que tudo não passou de uma grande farsa para respaldar a invasão.
Tão logo foram divulgadas as provocações estadunidenses, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Alí Rodríguez Araque, que participava de uma reunião no Chile com representantes da OEA, manifestou-se junto à imprensa para responder as acusações e ameaças da secretária Condoleezza Rice, considerando-as uma inadmissível intromissão na vida da Venezuela.
Já na Venezuela, o ministro da Defesa, Jorge Luis García Carnero, tratou de informar ao mundo, através dos jornais, sobre outras intromissões estadunidenses, estas dentro mesmo do país. Contou que, segundo denúncia do secretário do Conselho de Defesa da Nação (Codena), general de divisão Melvin López Hidalgo, há comprovada infiltração de elementos de organismo dos Estados Unidos na Petróleos de Venezuela (Pdvsa) Occidente.
"Estamos rodeados por elementos da CIA que têm insistido em provocar transtornos na vida institucional do país. Prova disso são os acontecimentos recentes de 2002, quando violaram o espaço aéreo e as águas territoriais. Havia aviões estacionados em Maiquetía em 11 de abril assim como oficiais que participaram ativamente na tomada do Comando do Exército durante o golpe", explicou. O ministro Carnero ainda informou que a Força Armada Nacional (FAN) vai trabalhar duro e sem trégua para encontrar os mecanismos necessários que permitam barrar a sempre presente ação dos agentes da CIA no país.
O fim do convênio militar EUA/Venezuela e a ALBA
Toda a ira da secretária estadunidense não tem como razão apenas os acontecimentos desestabilizadores do Equador, outro país que estava bem amarrado na cordinha da democracia do governo Bush. Ocorre que, também na semana passada, o governo venezuelano decidiu não respaldar mais qualquer convênio que signifique a presença de militares ou agentes estadunidenses no país. Esta decisão foi anunciada no programa Alô Presidente de número 220, pelo próprio Hugo Chávez. "Na Venezuela não vamos mais permitir que oficiais estadunidenses assumam funções em qualquer instituto de capacitação das forças de