A importância do assunto me impôs publicar fora da seção específica uma segunda mensagem que me foi enviada por Johannes van Leewen. Ela foi motivada por matéria da última edição do JP, que "tocou diversos aspetos da ocupação (invasão, conquista) agrícola da Amazônia". O Coordenador do Núcleo Agroflorestal do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, de Manaus) decidiu se manifestar por achar que "o melhor entendimento de certos aspectos técnicos pode melhorar o debate".
Em seu entendimento, o dendê "dá verdadeiras possibilidades para a inclusão social. Os casos da Malásia e Indonésia mostram isso claramente. Acredito que no Brasil as grandes empresas não são a favor, mesmo que algumas já trabalhem parcialmente com agricultores familiares.
Do outro lado há o Ministério de Desenvolvimento Agrícola, que pressiona, e pode dar incentivos fiscais". Mas, lamenta o pesquisador, "o MDA não parece ser uma organização muito eficaz. Por isso o debate público é muito importante". Ele constatou, surpreso, "que no CPATU (Embrapa-Belém), com tantos especialistas agroflorestais (meus colegas), ninguém parece estar estudando as opções para o dendê na pequena propriedade".
Segue-se a carta de Leewen e, em seguida, minha resposta.
O último Jornal Pessoal (edição 387) é muito feliz quando chama a atenção para as importantes mudanças que começam a ocorrer na agricultura da Amazônia. Neste contexto gostaria de comentar a "onda de energia verde" (artigo "Energia") (*) e o plantio da seringueira, mencionado na mesma edição. O Jornal Pessoal enumera criticamente diversas razões para o entusiasmo pela crescente onda de energia verde, uma delas: "as plantas locais serão privilegiadas".
De fato, não há espécies locais para privilegiar nos plantios para energia verde. Apenas há fundos para pesquisar espécies nativas de possível interesse no futuro, um futuro provavelmente bem distante, se chegar. No atual estado de conhecimento, as únicas espécies de interesse para a energia verde são duas exóticas: o dendê, para o biodiesel, e a cana-de-açúcar, para o etanol. O dendê possibilita a participação da agricultura familiar, a cana-de-açúcar não. O dendê é uma palmeira africana (não é nativa como escreve a mesma edição do Jornal Pessoal comentando um artigo de Hélio Jaguaribe), que chegou ao Brasil junto com os escravos. Desde então, foi cultivada na Bahia, por agricultores familiares.
Faz meio século que começou o cultivo do dendê no Pará, em grande escala, por empresas que combinam extensas plantações com fábricas para a extração do óleo. (Originalmente considerava-se que uma fábrica precisava de uma plantação de pelo menos 5.000 hectares, atualmente admitem-se também "mini-usinas" abastecidas por áreas de 500 ha de dendê.) O exemplo da Ásia (e o da Bahia) mostra que é possível, ou até melhor, que a empresa se limite à extração do óleo dos cachos de dendê produzidos por agricultores familiares. Isso se explica pelo tipo de planta usada neste caso.
O dendê é uma palmeira de grande porte para a qual a colheita e a manutenção do plantio não se prestam facilmente à mecanização. Sem mecanização, grandes áreas contíguas não resultam, necessariamente, em uma economia de escala. Pelo contrário, grandes áreas de monocultura facilitarão a propagação de doenças e pragas. Além disso, as palmeiras são plantadas com grande distância entre elas (na ordem de nove metros). Nos primeiros anos, as plantas jovens não ocupam esse espaço todo. O agricultor familiar sabe usar esse espaço ocioso bem melhor que a grande empresa especializada. A cana-de-açúcar é um caso bem diferente. Aqui não se trata de plantas muito grandes, separadas umas das outras, que precisam de um tratamento individualizado, mas de uma cobertura vegetal fechada e contígua, que facilita o tratamento e a colheita mecanizados. Assim sendo, a participação de