Jurista aponta que energia gerada pela nova usina migrará para outros estados, restando às áreas de florestas devastadas apenas os prejuízos sócio-ambientais
Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual
Publicado em 16/09/2011, 12:31
Última atualização às 12:31
TweetSão Paulo - Ao contrário do que atesta o governo federal e o consórcio responsável pela hidrelétrica de Belo Monte de que a usina levará desenvolvimento ao Pará e à Amazônia, e que a região "necessita" da energia que será gerada pela usina, a tese cai por si quando se leva em consideração que nem a energia, nem o dinheiro de sua geração ficarão na região. A avaliação é do procurador federal do Pará, Felício Pontes Junior.
"Se continuarem com essa concepção de desenvolvimento para a região, aAmazônia seguirá fazendo papel de colônia do Brasil", afirma Pontes, que participou de um debate sobre a obra, em São Paulo, na quinta-feira (15).
De acordo com o jurista, o estado será destino de apenas 3% da energia produzida em Belo Monte, ou seja, 97% de toda energia gerada em uma usina em territórios paraenses será destinada a outros estados.
Além disso, outra importante fonte de receita para estados e municípios é o ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadoria), imposto incluso também nas contas de luz de todos os brasileiros. O montante pago pelo imposto retorna parcialmente ao município e ao estado onde ele foi originado.
Entretanto, ressalta o procurador, o ICMS é cobrado pelo consumo da energia e não pela geração da mesma, penalizando de forma drástica os estados brasileiros que ficaram com o ônus dos danos sociais ambientais de empreendimentos do porte de hidrelétricas como Belo Monte. "E por mais paradoxal que aparente, são os estados que mais necessitam que a riqueza de sua biodiversidade volte como retorno financeiro", assinala.
Outra irreflexão do governo e daqueles que concordam com a construção da usina, de acordo com Felício, é sobre o que envolve a distribuição dos royalties da energia, ou seja, a compensação financeira pelo uso de recursos hídricos. No caso da construção de Belo Monte, dois municípios terão repasses desses royalties, Altamira e Vitória do Xingu. Porém, se for considerado o fluxo de migrantes para a região, o orçamento de ambas as cidades, principalmente Altamira, mesmo somados a essas verbas compensatórias, não serão suficientes para oferecer infraestrutura para toda a população.
O governo federal já estimou que só na cidade de Altamira, que hoje tem 100 mil habitantes, a população dobrará de tamanho, mas seu orçamento terá poucas alterações.
Em entrevista à Rede Brasil Atual em agosto, o bispo do Xingu, dom Erwin Krautler, afirmou que a cidade já encontra-se em situação caótica com as máquinas do canteiro de obras já chegando ao município e pessoas já entusiasmadas com os empregos que, acredita-se, serão oferecidos. "Altamira é uma cidade de 100 mil habitantes que está na iminência do colapso total, inclusive em termos de saúde pública, transporte e segurança", lamenta dom Erwin.