Rio de Janeiro, 11 de Setembro de 2026

Almodóvar não quis polemizar com <i> La Mala Educación</i>

Quinta, 11 de Março de 2004 às 08:15, por: CdB

O cineasta Pedro Almodóvar garante que rodou La Mala Educación, filme que estréia na Espanha no dia 18, "sem a menor intenção de gerar polêmica" e adverte que este não é um trabalho anticlerical, embora aborde os tema dos abusos sexuais que aconteceram nos colégios de padre durante a ditadura franquista.

"A Igreja desacredita-se por si só. Todos os dia lemos coisas horríveis" sobre ela nos jornais, acrescenta o cineasta que falou de seu escritório em Madri sobre a dificuldade de abordar a pedofilia em La Mala Educación.

"Tinha muito medo porque é difícil falar sobre os abusos sexuais sem cair nas denúncias. Optei por colocar esse assunto fora de foco e por dar ao espectador os dados suficientes para que ele saiba o que está acontecendo na tela. Não poderia permitir que o menino (o ator) sofresse a menor violência, que um dedo o tocasse", explicou.

La Mala Educación é o filme mais pessoal de Almodóvar porque contém lembranças de sua infância, embora ele faça questão de esclarecer que não foi abusado sexualmente.

"Eles tentaram. Estive a um metro deles. Falo de coisas que ouvi, vi e que me foram contadas. Não fiz o filme antes porque nunca senti a necessidade de falar sobre a minha infância. Isso veio com a idade", detalhou.

Almodóvar trabalhou mais de dez anos no roteiro desse filme, protagonizado pelos mexicanos Gael García Bernal e Daniel Giménez Cacho e os espanhóis Fele Martínez e Lluis Homar.
O resultado é uma trama muito complexa que funciona como o mecanismo de um relógio, narrando a amizade de duas crianças em um colégio de padres, onde um deles acaba sendo vítima de abusos sexuais.

O cinema de Almodóvar, por sua vez, torna-se cada vez mais complexo e ele parece saber disso. "A minha vida foi se simplificando e as histórias que eu conto foram se tornando cada vez mais complexas", mas estão feitas "para ser o mais transparentes possíveis e para ter uma leitura fácil", destacou.

O diretor é consciente de que não produziu "um filme desses que você vai acompanhando um personagem por uma linha reta" até o final de sua história.

La Mala Educación é também o trabalho mais obscuro de Almodóvar, que ressalta que o negro é um gênero que adoro e que está relacionado "aos temas escuros do coração dos seres humanos". "Esse não é um filme de personagens bons e maus, mas de seres imperfeitos", adiantou.

Pedro Almodóvar sabe, no entatno que tratar um tema tão polêmico como os abusos sexuais perpetrados por padres pode gerar uma dura polêmica. "Espero que na Espanha não aconteça nada disso porque as pessoas já estão acostumada a conviver com esse assunto através dos jornais".

"Além disso, a Conferência Episcopal perde credibilidade todas as vezes que fala sobre si mesma. O único que conseguiriam, caso se empenhassem muito, seria dar ainda mais publicidade ao meu filme".

A reação na França, onde o filme abrirá o Festival de Cannes, também não o preocupa. Mas na Itália sim. "Haverá problemas porque o papa (João Paulo II) está lá. Eles tentarão vetá-la mas o que estarão realmente fazendo é dar ao trabalho uma popularidade brutal", comentou Almodóvar antes de acrescentar que "o que vai acontecer nos EUA ainda é um mistério".

Na opinião do diretor de La Mala Educación, nos Estados Unidos "a manipulação da realidade é absoluta e dá medo". "Com esse Estados Unidos reacionário eu já me choquei antes, mas tenho muita sorte -acrescentou- porque sou apadrinhado por entidades culturais muito sólidas lá".

Ganhador de dois Oscar, um (1999) de Melhor Filme Estrangeiro, por Tudo Sobre Minha Mãe, e outro (2003) de Melhor Roteiro Original, por Fale Com Ela, Almodóvar faz "um exercício de futurologia" para falar sobre o que aconteceria caso voltasse a Hollywood com La Mala Educación.

"Quando me deram o Oscar de Roteiro, eles ficaram com muito medo, mas o certo é que o cinema de Hollywoood não atende todas as categorias e que cada vez é ma

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