"O senhor já combinou com o adversário para deixar a gente fazer tudo isso?"
A indagação de Garrincha após ouvir as orientações do técnico Feola, antes do jogo com a União Soviética, na Copa de 1958, na Suécia, acabou se transformando em pérola do futebol nacional. Questiona o excesso de confiança em nossas ações, quando menosprezamos outros fatores que podem influenciar no processo.
Trocando gramados por florestas, a mesma pergunta poderia ser feita sobre a política do governo federal para a Amazônia. As ações de combate ao desmatamento ilegal às margens da BR-163, a Rodovia Cuiabá-Santarém, vistas como salvadoras por parte da sociedade civil, não adiantarão de nada se o "adversário" - os atores do desmatamento da floresta - continuarem sem a devida marcação. E essa liberdade em campo, trazida pela conivência de várias esferas de governo com o modelo de expansão do capitalismo na Amazônia já vai render outro fruto: o asfaltamento da BR-319, ligando Porto Velho a Manaus, previsto para começar até o final deste ano.
Após a morte da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, o governo brasileiro baixou uma série de medidas para proteger comunidades extrativistas e de pequenos agricultores e o meio ambiente no Pará. Criou-se, por exemplo, bolsões de preservação em torno da BR-163 para proteger a região do impacto do seu asfaltamento - que servirá para facilitar o escoamento da produção do Mato Grosso através do porto de Santarém.
Que o Estado brasileiro só toma alguma atitude contra atores da expansão agrícola quando o derramamento de sangue de inocentes é estampado na mídia nacional e internacional, isso não é novidade. Xapuri, Eldorado dos Carajás e Unaí estão aí, para citar apenas alguns além de Anapu. Mas essa atitude é isolada no tempo e no espaço, com fazendeiros e madeireiros restabelecendo sua força logo a seguir.
Porque a verdade é que o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério do Desenvolvimento Agrário não possuem estrutura de fiscalização suficiente, através do Ibama e do Incra, para garantir a preservação nem das reservas já existentes, o que dirá desses imensos bolsões recém-criados. Isso, é claro, já descontados os funcionários de ambas as autarquias que jogam contra o patrimônio, aliando-se com as pessoas que deveriam fiscalizar.
A verdade é que essas regiões continuarão sendo exploradas, de uma forma ou de outra, porque o vetor de desmatamento estará instalado. Em algumas décadas, corre-se o risco de fotos de satélite mostrarem dois chumaços verdes de cada lado da BR-163, envolvidos por campos de soja e pastagens. O apoio irrestrito e burro ao latifúndio monocultor vai continuar. Seja ele em forma de financiamento a juros baixos e de isenção de impostos (sem nenhuma contrapartida social ou ambiental) ou da implantação de uma infra-estrutura de transporte que não é pensada para o desenvolvimento do país e sim para o escoamento de suas riquezas. A Amazônia e o Cerrado, dessa maneira, vão se tornando nuggets de redes de fast food européias, óleos de soja na mesa dos brasileiros e ripas de madeira nas obras de grandes condomínios.
Agora, que o asfaltamento da BR-163 tornou-se fato consumado e apoiado até por algumas entidades da sociedade civil, o próximo alvo é a BR-319. O Ministério do Meio Ambiente promete criar um colchão de proteção nos moldes da BR-163, com uma faixa de 100 km em que é proibido desmatar. Mas aqui a estupidez é ainda maior, porque essa estrada é paralela a um grande rio. E por mais que o trânsito de barcaças no Madeira gere um impacto ambiental, ele não é comparável ao trazido pelo asfalto entre as cidades de Humaitá e Careiro.
O problema não é só de preservação ambiental, mas sim das populações ribeirinhas e indígenas que moram na região, que não é um terreno baldio. O discurso da fronteira agrícola constrói uma idéia de vazio a partir dos dados de baixa densidade demográfica (baixa, não inexistente) que pode e deve ser ocup
Alguém combinou com o adversário?
A indagação de Garrincha após ouvir as orientações do técnico Feola, antes do jogo com a União Soviética, na Copa de 1958, na Suécia, acabou se transformando em pérola do futebol nacional. Questiona o excesso de confiança em nossas ações, quando menosprezamos outros fatores que podem influenciar no processo. (Leia Mais)
Terça, 20 de Junho de 2006 às 08:16, por: CdB