Rio de Janeiro, 12 de Janeiro de 2026

Alerj discute integração entre poderes contra a violência

Terça, 27 de Março de 2007 às 07:56, por: CdB

A integração entre as três esferas da administração pública na prevenção à violência foi o principal tema ressaltado por especialistas em segurança, durante audiência realizada na Alerj promovida pelas comissões de Defesa dos Direitos Humanos e de Segurança Pública. O cientista social João Trajano Sento-Sé, do Laboratório de Análises da Violência da Uerj, defendeu a integração vertical, entre os poderes federal, estadual e municipal, e horizontal, nos setores de educação, transporte e saúde, mobilizando todas as esferas de poder.

- Essa perspectiva de prevenção é recente, surgiu pela ineficácia do poder público. É necessário que haja um deslocamento conceitual, porque, hoje, segurança pública é entendida como combate ao crime e ao criminoso, mas a questão é outra - afirmou Trajano.

Presidente da Comissão de Segurança Pública, o deputado Wagner Montes (PDT) anunciou que, na próxima semana, as duas comissões realizam audiência pública sobre os modelos de policiamento adotados no Estado. Presidente da Comissão de Direitos Humanos, o deputado Alessandro Molon (PT) lembrou que não há segurança pública sem respeito aos direitos humanos.

Molon questionou os especialistas convidados quanto às iniciativas que o poder público pode tomar, e de que maneira as escolas podem contribuir. Sento-Sé lamentou a subutilização das escolas que, em sua opinião, devem ser ocupadas pela comunidade sempre que possível. - Além de escolas, o poder público deve investir em lazer, iluminação e limpeza, atreladas a uma concepção mais ampla de segurança pública -.

Ele ressaltou ainda que a polícia não é a única responsável pelo combate à violência. - A prevenção também pressupõe maior ação do Estado no combate à violência. Esse deslocamento conceitual também parte da antecipação, que significa atuar de modo que essas transgressões sejam menos corriqueiras e dramáticas à população - defendeu Trajano.

A Diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, Julita Lemgruber apresentou aos parlamentares o trabalho feito pela entidade, em parceria com o AfroReggae, em comunidades carentes de Minas Gerais. De acordo com ela, o projeto "Juventude e polícia", que atua há três anos em Minas, teve pouca receptividade no Rio de Janeiro.

- Junto com o AfroReggae, capacitamos os policiais em oficinas de percussão e teatro, e eles atuam nas comunidades. Mostramos ao policial que nem todo mundo que mora no morro é bandido, e o jovem vê que nem todo policial é bandido - observou Julita.

Ela disse que o governador do Rio, Sérgio Cabral, gostou do projeto e se comprometeu a implantá-lo no Estado. Para o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Marcelo Freixo (Psol), a criminalização da pobreza se dá pelo discurso dos próprios secretários e governantes.

- A favela da Maré tem mais de 130 mil habitantes, e só duas escolas de ensino médio. O Estado não garante os serviços básicos, como saúde e educação, então de que modo a polícia vai entrar nessa comunidade? Atirando, é claro - afirmou. O modo de operação da polícia nas comunidades também foi abordado pelo cientista social Ignácio Cano, da Uerj.

Segundo Ignácio o modo de policiamento deve ser modificado, pois a polícia carioca não pode entrar na favela como o exército israelense entra na Faixa de Gaza. - Nosso objetivo não pode ser vencer o crime, mas pacificar a sociedade. Olhemos o exemplo da Colômbia. Há 20 anos, era impensável que os colombianos nos dessem lições de segurança pública - comentou.
 

Tags:
Edições digital e impressa